Que o encontro encontre espaço


Uma carta de emanação para mulheres que desejam viver vínculos com presença, verdade e inteireza

Há momentos em que alguma coisa muda silenciosamente dentro da gente.

Não acontece com anúncio, data marcada ou grandes decisões.

A gente simplesmente percebe.

Existe espaço novamente.

Espaço para conhecer.

Para sentir.

Para se aproximar.

Para deixar alguém chegar.

Não porque esteja faltando alguma coisa.

Talvez essa seja justamente a diferença.

A vida continua acontecendo: trabalho, filhos, projetos, amigos, boletos, sonhos, cansaços, gargalhadas, imprevistos, vontades. Há uma existência inteira acontecendo antes de qualquer encontro.

E ainda assim, em algum lugar, nasce uma disponibilidade.

Então, Universo,

que eu continue aberta para aquilo que chega com verdade.

Para encontros que não exijam performance.

Para vínculos em que ninguém precise diminuir a própria existência para caber na vida do outro.

Para relações que tenham conversa, desejo, liberdade, cuidado, humor, curiosidade e presença.

Que eu saiba reconhecer reciprocidade não apenas nas palavras, mas nos movimentos.

Porque algumas coisas não precisam de grandes declarações.

Elas aparecem na curiosidade.

Na iniciativa.

Na vontade de estar.

Na capacidade de conversar quando seria mais fácil desaparecer.

Na delicadeza de perceber o outro sem invadi-lo.

Que eu não confunda intensidade com urgência.

Ausência com liberdade.

Química com compatibilidade.

Expectativa com destino.

E que eu não transforme potencial naquilo que ainda não existe.

Que eu consiga viver o que está diante de mim antes de escrever mentalmente os próximos capítulos.

Essa talvez seja uma das minhas maiores emanações:

que eu possa me entregar sem me abandonar.

Cuidar sem carregar.

Desejar sem perseguir.

Dar espaço sem me acostumar com ausência.

Construir sem assumir sozinha a arquitetura inteira do vínculo.

Que eu tenha serenidade para deixar as relações revelarem o que são.

Algumas permanecerão.

Outras atravessarão.

Algumas talvez surpreendam.

E nem todo encontro precisa se transformar em uma grande história para ter sido verdadeiro.

Mas, quando houver construção, que exista movimento dos dois lados.

Curiosidade dos dois lados.

Presença dos dois lados.

Que cada pessoa possa continuar inteira e, ainda assim, exista espaço para um nós.

Não emano perfeição.

Emano maturidade.

Reciprocidade.

Afeto.

Desejo.

Leveza.

Coragem para conversar.

Liberdade para continuar sendo quem se é.

E disponibilidade para construir aquilo que fizer sentido construir.

Talvez amadurecer também seja compreender que não precisamos saber antecipadamente onde cada encontro vai nos levar.

Podemos simplesmente estar presentes o suficiente para descobrir.

Sem correr atrás.

Sem fugir.

Sem fabricar destino.

Sem fechar a porta por medo do que poderá entrar.

Hoje quero permanecer assim:

não à espera.

Aberta.

Há uma diferença imensa entre as duas coisas.

Esperar pode colocar a vida em suspensão.

Estar aberta é continuar vivendo enquanto existe espaço para ser surpreendida por ela.

E talvez os encontros mais bonitos comecem justamente aí:

quando não precisamos deles para completar a nossa história, mas reconhecemos que há histórias que podem ficar ainda mais bonitas quando encontram espaço para serem compartilhadas.

Esta carta nasceu de uma emanação, mas não precisa pertencer a uma mulher só.

Se alguma parte dela encontrar alguma coisa que também pulsa em você, tome-a emprestada.

Risque.

Acrescente.

Mude.

Escreva a sua.

Porque cada mulher conhece — ou está aprendendo a conhecer — os vínculos nos quais deseja permanecer inteira.

Que a vida nos encontre abertas para reconhecê-los.

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