Encontro no desencontro: traz um alívio




Tenho uma relação curiosa com o morno.

Na comida, dependendo do prato, resolvemos.

Na vida, me cansa.

Não estou falando de viver em estado permanente de combustão. Ninguém merece uma existência que precise pegar fogo toda terça-feira para provar que está viva.

Gosto de paz.

Gosto de silêncio.

Gosto de espaço.

Mas nenhuma dessas coisas, para mim, é sinônimo de ausência.

Há silêncios cheios de presença.
Há distâncias que continuam próximas.
Há relações tranquilas com uma circulação danada por dentro.

E há o morno.

Aquela temperatura em que nada está exatamente ruim, mas também não há muito sangue chegando às extremidades.

É diferente.

Talvez eu tenha aprendido a reconhecer isso mais cedo.

Não porque tenha desenvolvido algum sofisticado detector de incompatibilidades — seria ótimo, inclusive aceito indicações de onde compra. Mas porque hoje presto mais atenção no que acontece comigo quando encontro alguém.

E “alguém”, aqui, pode ser muita gente.

Amigos. Amores. Parceiros de trabalho. Grupos. Pessoas que chegam por uma tarde ou atravessam décadas conosco.

Algumas presenças fazem a vida circular.

A conversa anda.

O pensamento ganha janela.

Há curiosidade.

Iniciativa.

Uma ideia puxa outra.

Um convida, o outro aparece.

Um atravessa metade da ponte e encontra alguém vindo do outro lado.

Gosto disso.

Gosto de gente que vem.

Talvez porque eu também vá.

Não tenho problema algum em atravessar a rua, puxar uma cadeira, iniciar uma conversa, propor um encontro, mandar uma mensagem, fazer uma pergunta ou dizer “estou a fim”.

Mas há algo profundamente bonito em, no meio do caminho, perceber:

olha só, tem alguém vindo na minha direção também.

Isso muda a temperatura das coisas.

E não tem nada a ver com contar movimentos para garantir reciprocidade matemática.

Deus me livre de transformar vínculo em conciliação bancária.

Tem a ver com circulação.

Com sentir que há vida acontecendo dos dois lados.

É por isso que não me assusto tanto com incompatibilidades.

Elas aparecem.

Ainda bem.

Conhecer alguém é também descobrir onde não combinamos.

Ritmos diferentes.

Formas diferentes de conversar.

Necessidades.

Hábitos.

Limites.

Medos.

Um precisa de mais espaço, outro de mais presença. Um pensa antes de falar, outro pensa enquanto fala e, quando percebe, já abriu sete abas, três parênteses e provavelmente fez uma piada no meio.

Oi.

A questão nunca foi encontrar alguém perfeitamente compatível.

Além de improvável, deve ser um tédio.

O que me interessa é outra coisa:

o que fazemos quando a diferença aparece?

Porque existe uma diferença enorme entre não saber e não querer.

“Não sei onde isso vai dar.”

Ótimo. Eu também não.

“Não tenho certeza.”

Nem eu.

“Tenho algumas reservas.”

Normal. Estamos vivos e, espera-se, aprendemos alguma coisa pelo caminho.

Mas ainda existe curiosidade?

Desejo?

Vontade de chegar um pouco mais perto e descobrir?

Se houver, temos matéria.

A terceira via começa justamente aí.

Ela não é concessão.

Não é eu diminuir meu tamanho para caber no seu espaço.

Também não é você precisar se esticar para alcançar o meu.

É aquele território que não existia antes do encontro.

Nem meu.

Nem seu.

Nosso.

Mas há uma pequena questão logística — e afetiva — nessa história:

para construir uma terceira via, são necessárias pelo menos duas pessoas interessadas na obra.

Uma sozinha pode fazer uma ponte linda.

Continua sendo metade de uma ponte.

E eu já tive idade para tentar decorar metade de ponte e chamar de paisagem.

Hoje não.

Hoje consigo olhar com mais tranquilidade para os desencontros.

Alguns, inclusive, são belíssimos.

Porque nem todo desencontro é fracasso.

Às vezes é exatamente o momento em que duas pessoas finalmente conseguem se encontrar na realidade.

Sem projeção.

Sem “quem sabe”.

Sem transformar potencial em compromisso.

Sem precisar convencer ninguém de que aquilo poderia ser incrível se apenas...

Não.

Pode até ser que pudesse.

Mas possibilidade não sustenta relação.

Movimento sustenta.

E movimento não significa velocidade.

Essa diferença é importante.

Alguém pode caminhar devagar e estar vindo.

Outro pode falar muito e não sair do lugar.

Não procuro pressa.

Procuro pulso.

Gosto de gente com pulso.

Intelectuais com fogo.

Pessoas curiosas, atravessadas pela vida, capazes de conversar sobre uma ideia e também gargalhar dela cinco minutos depois.

Gente que deseja.

Que pergunta.

Que propõe.

Que muda de ideia.

Que se surpreende.

Que surpreende.

Gente que não tenha tanta certeza, mas tenha presença suficiente para descobrir.

Talvez porque eu também seja assim.

Trago cotidiano para a conversa.

Uma bobagem pode virar reflexão.

Uma reflexão pode terminar em gargalhada.

Compartilho uma música, uma ideia, uma cena na rua, uma pergunta que apareceu no banho.

Isso não significa que eu esteja entregando as escrituras do meu coração em cartório.

É só meu jeito de estar em relação.

Circulando.

Durante muito tempo, talvez eu tenha calibrado partes demais de mim para não ocupar tanto espaço.

Hoje calibro relações.

É diferente.

Posso ajustar o passo.

Posso aprender outra linguagem.

Posso respeitar outro ritmo.

Posso inclusive descobrir uma maneira de estar que nunca experimentei.

Plasticidade me interessa.

Amputação, não.

Porque uma coisa é encontrar um terceiro caminho.

Outra é passar a viagem inteira andando de lado para não incomodar ninguém.

A essa altura da vida, minhas vértebras agradecem.

E talvez seja isso que alguns encontros venham mostrar.

Não necessariamente quem fica.

Mas onde ainda há circulação.

Às vezes duas pessoas se encontram justamente para perceber que não querem seguir na mesma direção.

E pode haver carinho nisso.

Respeito.

Tesão até.

Pode ter sido bonito.

Pode ter despertado alguma coisa.

Pode ter valido cada centímetro.

E ainda assim:

“Daqui eu vou por ali.”

“Eu vou por aqui.”

Tá tudo certo.

Não precisamos transformar toda bifurcação em tragédia.

Nem todo encontro pede permanência.

Mas, se for para continuar, eu gosto daquele pequeno luxo que nenhuma agenda consegue fabricar:

vontade mútua.

Não certeza.

Vontade.

Aquela coisa simples e quente que faz duas pessoas olharem para uma diferença e, em vez de imediatamente procurarem a saída, perguntarem:

“Será que tem caminho por aqui?”

Se as duas quiserem descobrir, talvez tenha.

Se uma não quiser, também temos uma resposta.

E seguimos.

Sem diminuir ninguém.

Sem diminuir a nós mesmos.

Sem ressentimento por aquilo que não aconteceu.

Há encontros que viram casa.

Outros viram memória.

Alguns viram amizade.

E há aqueles que nos devolvem para a estrada um pouco mais conscientes da própria temperatura.

Eu gosto de calor.

De pele.

De conversa.

De movimento.

De gente que vem na minha direção e deixe que eu vá também.

Não preciso de incêndio.

Mas preciso sentir vida circulando.

O morno pode ser uma temperatura perfeitamente legítima.

Só não é onde eu escolho ficar.

E sigo.

Com fogo suficiente para continuar curiosa — e espaço suficiente para não precisar convencer ninguém a se aquecer.

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