Indicadores não oficiais da vida adulta

A vida adulta tem dessas ironias: a gente aprende a fazer planejamento, matriz de risco, cronograma, orçamento, metas, indicadores, projeções… e ainda assim continua bastante despreparado para lidar com aquilo que não aceita Excel.

Presença, por exemplo.

Não tem fórmula.
Não tem dashboard.
Não tem campo obrigatório.
E, curiosamente, costuma revelar mais do que muito relatório bem apresentado.

Outro item curioso: prioridade.

Muita gente declara uma.
A agenda declara outra.
E a vida, com aquele talento quase inconveniente para auditoria, mostra a diferença.

Aliás, a agenda é uma espécie de delatora elegante. Ela não discute, não justifica, não argumenta. Apenas mostra onde colocamos tempo, energia e atenção.

Também existe o clássico “vou ver”.

Expressão diplomática, socialmente aceita, flexível, aparentemente inofensiva e com impressionante capacidade de atravessar semanas sem qualquer implementação prática.

Na vida adulta, “vou ver” poderia até ganhar uma categoria própria nos relatórios de acompanhamento:

Status: em análise.
Prazo: indefinido.
Responsável: ninguém sabe.
Risco de execução: considerável.

Tem ainda o planejamento excessivo.

Aquela tentativa sofisticada de parecer prudente quando, em alguns momentos, talvez o nome técnico seja apenas medo com boa apresentação.

Planejamos para evitar erros.
Calculamos para reduzir riscos.
Projetamos cenários para tentar prever consequências.

Tudo absolutamente útil.

Até o momento em que começamos a exigir da vida garantias que ela nunca prometeu oferecer.

Porque existem investimentos de alto risco e altíssimo valor que nenhum modelo consegue mensurar com precisão:

confiar,
se abrir,
mudar de ideia,
dizer o que sente,
experimentar algo novo,
reconhecer quando algo importa,
começar outra vez.

Nenhum deles oferece garantia de retorno.

Ainda bem.

Talvez algumas das experiências mais importantes da vida perdessem justamente a potência se viessem acompanhadas de manual, cronograma e previsão de resultado.

Há também uma diferença que tenho observado cada vez mais: encaixar algo na agenda não é exatamente a mesma coisa que criar espaço para aquilo.

A primeira operação é logística.

A segunda envolve escolha.

E escolhas verdadeiras costumam aparecer menos no discurso e mais na maneira como reorganizamos a própria vida quando algo realmente passa a importar.

No fim, talvez estejamos ficando bons demais em administrar e um pouco enferrujados em experimentar.

Queremos controlar o tempo, a carreira, os projetos, os afetos, os riscos, os resultados.

Mas a vida segue com seu método pouco colaborativo de incluir variáveis que ninguém colocou na planilha.

Ainda bem.

Porque alguns dos melhores retornos continuam não cabendo em KPI.

Uma conversa que muda uma perspectiva.
Uma escolha que parecia improvável.
Um reencontro.
Uma ideia que abre caminho.
Uma decisão tomada menos pelo medo e mais pela coerência.
Um instante em que simplesmente percebemos: isso faz sentido.

Talvez maturidade não seja eliminar riscos.

Talvez seja aprender a reconhecer quais riscos valem a nossa presença.

E, vez ou outra, fechar a planilha.

A vida também precisa de espaço para acontecer.

E você: anda vivendo ou ainda está fazendo estudo de viabilidade da própria vida?

Observação: este texto contém ironia, algumas provocações e uma auditoria emocional não solicitada. Use os indicadores por sua conta e risco.

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