Quem cabe nas nossas mudanças
Amizades que aprendem a atravessar o tempo
Tenho pensado que amizade adulta talvez tenha menos a ver com afinidade e mais com espaço.
Espaço para que o outro mude.
Para que pense diferente.
Para que escolha caminhos que não escolheríamos.
Para que atravesse fases em que está mais presente e outras em que a vida simplesmente o leva para longe.
Durante muito tempo, talvez a gente associe amizade à ideia de proximidade constante, identificação, gostos parecidos, presença frequente, concordância.
Mas o tempo vai sofisticando essa compreensão.
Porque algumas amizades atravessam décadas não por terem permanecido intactas, mas justamente porque aprenderam a se transformar.
Elas sobreviveram às nossas certezas da juventude.
Aos namoros.
Aos casamentos.
Às separações.
À maternidade.
Às mudanças de cidade.
Aos trabalhos que consumiram nossos dias.
Às crises.
Às conquistas.
Às versões um pouco insuportáveis que também já fomos. 😅
E, principalmente, sobreviveram ao fato de que ninguém permanece exatamente igual.
Talvez uma das formas mais bonitas de maturidade seja perceber que amar alguém — também na amizade — não significa exigir que essa pessoa continue sendo aquela que conhecemos tantos anos atrás.
Há uma certa arrogância afetiva quando esperamos que o outro permaneça disponível exatamente do modo que nos acostumamos a encontrá-lo.
As pessoas mudam de ritmo.
Mudam de opinião.
Mudam de sonhos.
Mudam de prioridades.
Às vezes mudam até de linguagem.
E amizade não deveria ser uma fiscalização permanente dessas transformações.
Claro que existem limites.
Sustentar quem o outro é não significa tolerar desrespeito, ausência de reciprocidade ou relações que nos diminuem.
Afeto não exige autoabandono.
Mas existe uma enorme diferença entre estabelecer limites e querer administrar quem o outro deveria ser.
Talvez aí esteja uma das fronteiras mais delicadas das relações adultas.
Há amigos que conversam conosco todos os dias.
Há outros com quem passamos meses sem falar e, quando nos encontramos, alguma coisa simplesmente continua.
Não porque nada tenha mudado.
Mas porque existe uma memória afetiva que reconhece a essência antes mesmo de atualizar os acontecimentos.
E eu acho isso bonito.
Há pessoas com quem compartilhamos interesses.
E há pessoas com quem compartilhamos história.
História de quando não sabíamos direito quem seríamos.
De quando tínhamos outras preocupações, outros sonhos...
O curioso é perceber que algumas relações conseguem acompanhar nossas transformações sem exigir que abandonemos quem estamos nos tornando.
Isso, para mim, é uma forma sofisticada de amizade.
Aquela que não aprisiona.
Que não cobra permanência, mas reconhece presença.
Que consegue dizer:
“Eu talvez não escolheria o que você escolheu. Posso até não compreender completamente. Mas continuo enxergando você.”
Talvez seja isso que o tempo faça com os vínculos verdadeiros.
Ele não necessariamente os mantém próximos.
Ele os revela.
Porque depois de tantos anos, tantas mudanças e tantas versões de nós mesmos, permanecer não significa estar o tempo inteiro ao lado.
Às vezes, permanecer é continuar existindo no lugar onde ainda podemos ser reconhecidos sem precisar explicar toda a nossa trajetória outra vez.
E talvez a pergunta mais bonita sobre amizade não seja:
“Quem permaneceu igual?”
Mas:
“Com quem eu posso continuar mudando sem precisar deixar de ser quem sou?”
Essa resposta diz muito sobre os vínculos que construímos.
E talvez diga ainda mais sobre a forma como aprendemos a amar.

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Meri