Fadaleta: o ser em movimento


Tenho uma fada-borboleta tatuada nas costas.

Ela toca flauta, não tem rosto e permanece inacabada.


Hoje percebo o quanto ela carrega de mim.


A Fadaleta representa o meu ser em construção: a mulher que fui, a mulher que sou e as tantas mulheres que ainda estou me tornando.


Os caminhos percorridos foram me moldando. Encontros, despedidas, escolhas, conquistas, fracassos, vitórias, mudanças de rota, recomeços.


Nada disso passou por mim sem deixar alguma coisa.


Talvez por isso eu goste tanto de olhar para os ciclos.


Os setênios me ajudam a perceber a vida em camadas. A astrologia e a numerologia me convidam a observar movimentos e tempos. A psicologia e a psicanálise me levam para dentro. A filosofia me devolve perguntas quando as respostas parecem fáceis demais.


No xamanismo e na espiritualidade, encontro outras formas de escuta.


No budismo, presença.


Em Jesus Cristo, amor, compaixão e humanidade.


Na arte, na música, no canto e na dança, encontro linguagem para aquilo que nem sempre consigo explicar.


Nas conversas com amigos e na minha família, encontro pertencimento.


Não preciso colocar essas experiências umas contra as outras.


Gosto das pontes.

Gosto daquilo que amplia sem me aprisionar.


Com o tempo, tenho aprendido também a reconhecer melhor os meus inegociáveis.


Não como uma lista rígida.

Como consequência da caminhada.


Hoje percebo alguns sinais antes.

Confio mais na experiência.

Escuto melhor meu corpo.

E tenho aprendido a distinguir a inquietação daquela intuição silenciosa que, para mim, também tem algo de divino.


Aquela que não precisa gritar.


Às vezes apenas diz:


por aqui.


Ou:

aqui não mais.


Tenho me permitido ser mais eu.


Menos preocupada em caber em definições.


Sou mãe.

Sou filha.

Sou mulher.

Sou amiga.

Sou profissional.

Sou professora e aprendiz.

Sou racional e intuitiva.

Sou espiritual e profundamente humana.

Sou presença e movimento.


Preciso de poesia.

De humor.

De desejo.

De conversas que me atravessem.

De gente com quem eu possa pensar profundamente e, cinco minutos depois, rir de alguma bobagem.


Talvez seja justamente por isso que minha fada não tenha rosto.


Um rosto poderia encerrá-la numa identidade.


E eu não quero ser uma versão definitiva de mim mesma.


A borboleta me lembra da transformação.

A flauta, de não perder a música durante a travessia.


E o inacabado?

Hoje já não vejo como ausência.

Vejo como possibilidade.


Não quero amadurecer a ponto de endurecer.


Quero amadurecer a ponto de discernir — sem perder curiosidade, desejo, encanto e movimento.


A Fadaleta continua inacabada.

Eu também.


E há uma liberdade imensa em saber que ainda existem partes minhas que nem conheci.


E você?


Quais caminhos moldaram quem você está se tornando?


O que a vida já te ensinou que hoje é inegociável?


E quanto de você ainda tenta caber em uma definição, quando talvez a vida esteja justamente te convidando a continuar em movimento?


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