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Mostrando postagens de agosto, 2026

Onde a vida circula

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  Tem coisa que a gente só descobre quando para de mexer Tem uma experiência curiosa nas relações: parar de fazer a nossa parte e mais um pouco. Não como teste. Teste é uma forma meio sofisticada de continuar tentando controlar o resultado. É parar porque, em algum momento, a gente percebe que estava fazendo hora extra num trabalho para o qual nunca foi contratado. Isso acontece em todo lugar. Na amizade em que é sempre a mesma pessoa que chama. Na família em que alguém assumiu silenciosamente a função de manter todo mundo conectado. No trabalho, quando uma parceria só funciona porque existe alguém lembrando, organizando, perguntando, remendando. Nos afetos, quando o interesse até parece existir, mas precisa de uma pequena central de operações para continuar respirando. E tem ainda aquelas relações difíceis de nomear. Pessoas que gostam da nossa presença, acompanham de longe, aparecem de vez em quando, demonstram carinho — mas não necessariamente constroem proximidade. Nada disso p...

Encontro no desencontro: traz um alívio

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Tenho uma relação curiosa com o morno. Na comida, dependendo do prato, resolvemos. Na vida, me cansa. Não estou falando de viver em estado permanente de combustão. Ninguém merece uma existência que precise pegar fogo toda terça-feira para provar que está viva. Gosto de paz. Gosto de silêncio. Gosto de espaço. Mas nenhuma dessas coisas, para mim, é sinônimo de ausência. Há silêncios cheios de presença. Há distâncias que continuam próximas. Há relações tranquilas com uma circulação danada por dentro. E há o morno. Aquela temperatura em que nada está exatamente ruim, mas também não há muito sangue chegando às extremidades. É diferente. Talvez eu tenha aprendido a reconhecer isso mais cedo. Não porque tenha desenvolvido algum sofisticado detector de incompatibilidades — seria ótimo, inclusive aceito indicações de onde compra. Mas porque hoje presto mais atenção no que acontece comigo quando encontro alguém. E “alguém”, aqui, pode ser muita gente. Amigos. Amores. Parceiros de trabalho. Grup...

A vida não cabe em linha reta

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Tem dias em que tudo parece perfeitamente organizado. Agenda minimamente sob controle, algumas certezas no lugar, decisões encaminhadas, gavetas internas razoavelmente fechadas. Aí a vida entra sem bater, muda uma cadeira de lugar e pronto. Lá vamos nós reorganizar a sala. Talvez eu tenha feito as pazes com isso. Não com o caos pelo caos — confesso que gosto de alguma estrutura. Disciplina, organização e processo podem ser grandes aliados, desde que se lembrem de uma coisa básica: precisam caber na vida. Quando a vida é que começa a precisar caber neles, alguma coisa saiu do lugar. E relações são excelentes para nos lembrar disso. Relações de trabalho, amizade, família, grupos, parcerias, amores, encontros que ainda nem sabemos o que serão. Gente não vem com manual de instruções. Ainda bem. Cada pessoa chega com seu repertório, seus silêncios, entusiasmos, limites, histórias, maneiras de demonstrar, tempos para compreender e jeitos particulares de ocupar uma sala. O curioso começa quan...

A qualidade dos encontros

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  Tenho pensado que boa parte do que construímos na vida depende menos da quantidade de pessoas ao redor e mais da qualidade da presença que circula entre elas. Isso vale para quase tudo. Uma amizade. Uma família. Uma equipe. Uma sociedade. Um grupo reunido em torno de uma causa. Uma parceria profissional. Um encontro aparentemente despretensioso que, sem grandes anúncios, desloca alguma coisa dentro da gente. Relações são organismos vivos. Talvez por isso fórmulas funcionem tão pouco. Há quem precise de mais tempo. Quem chegue perguntando. Quem primeiro observe. Quem pense em voz alta. Quem demonstre fazendo. Quem precise compreender antes de se posicionar. Diferenças não me parecem o maior problema. O que me interessa é o que fazemos com elas. Porque entre impor o próprio jeito e desaparecer para acomodar o jeito do outro existe um território muito mais interessante: aquele que construímos juntos. No trabalho, isso aparece o tempo todo. Uma equipe não se torna potente porque todo...

Perna bamba, agenda na mão

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Ainda quero a perna bamba. Não apenas aquela provocada por um encontro que muda discretamente a temperatura do corpo. Quero a perna bamba diante de uma conversa que desloca certezas. De uma amizade que atravessa décadas e continua encontrando assunto. De um filho que cresce e apresenta ao mundo uma versão de si que não estava nos nossos planos. De um projeto que assusta justamente porque importa. De uma despedida. De um recomeço. De alguém que chega. De alguém que fica. E até de quem vai embora. Há pessoas que passam pela nossa vida deixando histórias. Outras deixam perguntas. Algumas deixam saudade. Há aquelas que deixam alívio — embora essa parte raramente renda fotografias bonitas. A vida é bastante criativa na maneira de nos colocar em relação. Talvez por isso eu tenha certa resistência à ideia de que maturidade seja uma espécie de estabilidade permanente, um lugar onde finalmente sabemos quem somos, o que queremos e como reagiremos diante das coisas. Que tédio. Quanto mais vivo, m...

A delicadeza da medida

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  Nem tudo o que nos encanta precisa crescer. Algumas experiências chegam apenas para deslocar o olhar, devolver uma sensação esquecida ou lembrar que certos lugares dentro de nós continuam vivos. Não precisam tornar-se maiores para terem sido verdadeiros. Talvez a maturidade esteja também em reconhecer a medida das coisas. Há movimentos que pedem passagem. Outros, contemplação. Alguns merecem investimento, continuidade, espaço na agenda e na vida. Outros podem permanecer bonitos exatamente onde aconteceram, sem que isso os diminua. Nem toda pausa é medo. Nem todo recuo é desistência. Nem toda abertura precisa tornar-se entrega. Aprender a perceber essas diferenças exige uma escuta muito particular. Aquela que não se orienta apenas pelo entusiasmo do instante, mas também pelo que permanece quando o ruído diminui. Com o tempo, deixamos de direcionar energia apenas para aquilo que desperta desejo e começamos a observar o que também encontra lugar na realidade. Não por excesso de caut...

Nem toda porta aberta é um convite para entrar

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Algumas partes de nós não estão fechadas por medo. Estão preservadas por consciência. Depois de certas experiências, aprendemos que intimidade não é apenas o que acontece durante um encontro. É também aquilo que permanece reverberando quando cada um retorna à própria vida. Uma conversa que alcança lugares profundos. Um corpo que volta a confiar. Uma delicadeza que desperta desejos antigos. A sensação de ser vista depois de muito tempo. Tudo isso pode ser bonito. E justamente por ser bonito, merece cuidado. Nem sempre evitamos um envolvimento porque não queremos sentir. Às vezes, queremos muito. Mas sabemos que determinadas aproximações movimentam camadas que escolhemos manter quietas até encontrarem presença suficiente para recebê-las. Não se trata de exigir garantias antes de viver. Relações não oferecem contratos contra frustrações. Trata-se de perceber se existe realidade suficiente para assumir o risco afetivo que determinada experiência carrega. Porque intensidade e maturidade rel...

Deixo a porta destrancada

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  Uma carta de emanação para mulheres que continuam disponíveis para a vida Não estou esperando. Tenho coisas demais acontecendo para ficar sentada na antessala da vida aguardando alguma coisa chegar. Mas também não quero trancar a porta. Talvez essa seja uma das delicadezas da maturidade: continuar inteira sem se tornar inacessível. A vida vai nos atravessando. Algumas experiências ampliam. Outras reorganizam. Há encontros que permanecem, outros que mudam de lugar e alguns que simplesmente cumprem seu tempo. E seguimos. Mais conscientes de algumas coisas, completamente iniciantes em outras. Depois de certas travessias, porém, existe uma tentação silenciosa: construir muros muito bem elaborados e chamar isso de independência. A gente aprende a resolver. A não precisar. A organizar a própria vida. Constrói uma casa interna bonita, coloca as coisas no lugar e, quando percebe, talvez esteja protegendo tanto aquilo que conquistou que qualquer possibilidade de chegada parece uma ameaça ...

Que o encontro encontre espaço

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Uma carta de emanação para mulheres que desejam viver vínculos com presença, verdade e inteireza Há momentos em que alguma coisa muda silenciosamente dentro da gente. Não acontece com anúncio, data marcada ou grandes decisões. A gente simplesmente percebe. Existe espaço novamente. Espaço para conhecer. Para sentir. Para se aproximar. Para deixar alguém chegar. Não porque esteja faltando alguma coisa. Talvez essa seja justamente a diferença. A vida continua acontecendo: trabalho, filhos, projetos, amigos, boletos, sonhos, cansaços, gargalhadas, imprevistos, vontades. Há uma existência inteira acontecendo antes de qualquer encontro. E ainda assim, em algum lugar, nasce uma disponibilidade. Então, Universo, que eu continue aberta para aquilo que chega com verdade. Para encontros que não exijam performance. Para vínculos em que ninguém precise diminuir a própria existência para caber na vida do outro. Para relações que tenham conversa, desejo, liberdade, cuidado, humor, curiosidade e prese...

Romântica, com as medidas cabíveis

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  Ainda gosto do encanto. Da conversa que atravessa o tempo sem pedir licença. Da música que aparece na cabeça porque alguma frase encontrou uma memória. Dos encontros que não estavam no roteiro. Daquele instante em que duas pessoas se olham e alguma coisa muda de lugar. Gosto do que não cabe inteiramente na lógica. Mas aprendi que romantismo não precisa significar ausência de lucidez. Talvez seja justamente o contrário. Há uma diferença entre permitir-se viver uma história e começar a escrevê-la antes que ela aconteça. Entre desejar e projetar. Entre reconhecer uma possibilidade e transformá-la em promessa. Entre abrir a porta e entregar a chave. Hoje, gosto mais da primeira parte de cada uma dessas frases. Posso me encantar sem precisar saber onde aquilo vai chegar. Posso desejar alguém sem imediatamente nomear o que estamos vivendo. Posso abrir espaço para o inesperado e, ainda assim, conversar sobre aquilo que importa. Porque algumas perguntas não estragam o encanto. Elas evita...

Raízes que sustentam, asas que reconhecem o caminho

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  Gosto de pensar que algumas forças não se anulam. Elas se refinam quando aprendemos a habitá-las por inteiro. Há em mim uma relação profunda com o pertencimento. Com a casa, com os vínculos, com as pessoas que atravessam o tempo, com a memória que não aprisiona, mas oferece chão. Ao mesmo tempo, existe uma parte que precisa de movimento, de travessia, de horizonte. Não vejo oposição nisso. Raízes fortes não impedem o voo. Muitas vezes, são justamente o que torna possível partir sem se perder. Talvez por isso eu possa desejar estabilidade sem desejar imobilidade. Gostar de casa sem abrir mão do mundo. Valorizar vínculos profundos sem confundir proximidade com posse. Apreciar o que permanece e, ainda assim, reconhecer a potência do que muda. Há beleza nessa coexistência. A raiz sustenta. A asa amplia. Uma oferece pertencimento. A outra lembra que pertencimento não deveria exigir redução. Também penso nisso quando observo as relações. Não me interessa um vínculo que peça para alguém...

Entre a presença e o espaço: o movimento

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 Tenho aprendido a apreciar o que não precisa ser forçado. O interesse que se revela nos detalhes. A presença que não invade, mas também não se ausenta. A mensagem que chega sem pretexto. A voz que atravessa a distância simplesmente porque houve vontade de ouvir e ser ouvido. Gosto do tempo da descoberta. Da curiosidade que permanece acesa quando duas pessoas ainda têm muito a conhecer uma da outra. Sem pressa para definir, sem necessidade de antecipar caminhos. Mas há algo que, para mim, faz diferença: movimento. Não aquele que impressiona, promete ou ocupa todos os espaços. Falo do movimento sutil de quem se aproxima porque quer. De quem demonstra interesse sem precisar ser conduzido até ele. Talvez a maturidade tenha me ensinado justamente isso: posso desejar sem perseguir, me envolver sem me perder e demonstrar sem assumir sozinha a responsabilidade pelo encontro. Não preciso interpretar cada silêncio. Prefiro perceber presenças. Gosto de liberdade, mas daquela que sabe criar p...

Fadaleta: o ser em movimento

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Tenho uma fada-borboleta tatuada nas costas. Ela toca flauta, não tem rosto e permanece inacabada. Hoje percebo o quanto ela carrega de mim. A Fadaleta representa o meu ser em construção: a mulher que fui, a mulher que sou e as tantas mulheres que ainda estou me tornando. Os caminhos percorridos foram me moldando. Encontros, despedidas, escolhas, conquistas, fracassos, vitórias, mudanças de rota, recomeços. Nada disso passou por mim sem deixar alguma coisa. Talvez por isso eu goste tanto de olhar para os ciclos. Os setênios me ajudam a perceber a vida em camadas. A astrologia e a numerologia me convidam a observar movimentos e tempos. A psicologia e a psicanálise me levam para dentro. A filosofia me devolve perguntas quando as respostas parecem fáceis demais. No xamanismo e na espiritualidade, encontro outras formas de escuta. No budismo, presença. Em Jesus Cristo, amor, compaixão e humanidade. Na arte, na música, no canto e na dança, encontro linguagem para aquilo que nem sempre consi...