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Mostrando postagens de setembro, 2026

A Tônica e o Gin

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Às vezes é só uma sensação. Quase nada, na verdade. Uma mudança pequena na temperatura das coisas. Um olhar que encontra outro e demora um segundo além do necessário. Depois volta. E, em algum momento, já não se sabe muito bem quem olhou primeiro. Gosto quando a vida faz isso. No meio de uma noite bonita, música no tom, dança, pessoas interessantes, conversas que começam num canto e seguem por outros caminhos. Tudo acontecendo ao mesmo tempo. E, por alguns minutos, a gente simplesmente está ali. Presente. Um assunto puxa outro. Uma risada. Uma provocação. Uma pausa. Os olhos se encontram de novo no meio de uma frase e alguma coisa fica suspensa por um instante. A conversa segue. Mas aquele segundo fica. Talvez algumas pessoas sejam assim. A gente conhece, encontra, reencontra… até que um dia percebe uma nuance que antes tinha passado quieta. Nada muda tanto assim. Mas muda o suficiente. O suficiente para aguçar a curiosidade. Para querer ouvir a próxima história. Fazer outra pergunta....

Gosto de gente em movimento

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Estava pensando outro dia sobre encontros. Não sei exatamente o que faz duas pessoas se reconhecerem no meio de tanta gente. E nem estou falando só de amor. Pode ser amizade, trabalho, uma conversa improvável, alguém que senta ao nosso lado e, de repente, duas horas passaram e a conversa fluiu deliciosamente. Tem gente com quem a conversa simplesmente anda. Você fala uma coisa, a pessoa pega, devolve outra, surge uma história, uma gargalhada, um silêncio, muda o assunto, volta três assuntos depois... e ninguém está preocupado em causar boa impressão. Talvez eu goste disso: de gente em movimento. Não movimento de agenda lotada, produtividade, “vamos marcar um café” que jamais acontecerá — disso o mundo já está suficientemente abastecido. Movimento de presença. De lembrar e mandar uma música. De ligar porque deu vontade. De fazer um convite. De perguntar e realmente querer ouvir a resposta. E também de silêncio. Porque nem toda pausa é distância. Na música, a pausa faz parte da composiçã...

As delícias e os avessos de ser mãe

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Ser mãe talvez seja uma das experiências mais bonitas e contraditórias que cabem dentro de uma pessoa. E digo “pessoa” de propósito. Porque antes da mãe existe uma mulher. Com desejos, cansaços, projetos, boletos, tesão pela vida, medos, sonhos, impaciências, ambições, silêncios e uma identidade inteira que não deveria desaparecer no instante em que alguém passa a chamá-la de mãe. Há mães solo. Mães casadas. Separadas. Divorciadas. Viúvas. Mães que dividem a rotina e mães que dividem muito pouco. Mães cercadas de gente e profundamente sozinhas. Mães com rede de apoio. Mães que descobriram, na prática, que “rede de apoio” às vezes é uma expressão bastante sofisticada para duas amigas, uma avó cansada e um grupo de WhatsApp. Cada maternidade tem sua geografia. Mas talvez algumas emoções atravessem muitas de nós. Eu sinto as dores e as delícias de ser mãe. Há momentos de um amor tão profundo que parece impossível explicar sem cair em algum clichê. Aquele instante em que você olha para uma...

Margens que fluem

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Gosto de ter direção. Saber o que importa, sustentar escolhas, honrar compromissos e caminhar em direção ao que faz sentido. Só não tenho a menor pretensão de controlar cada curva. A vida tem movimento próprio — e, convenhamos, costuma ser bastante criativa quando contrariada. Há uma inteligência bonita em ajustar a rota sem perder o rumo. Mudar o passo. Rever uma certeza. Reconhecer uma passagem que não estava ali antes. Plasticidade. Não como falta de decisão, mas como confiança suficiente para não endurecer diante do inesperado. Talvez o flow more justamente aí: nesse ponto delicado entre intenção e abertura, entre conduzir e perceber, entre fazer acontecer e saber quando não atrapalhar o que já está acontecendo. Tenho apreço por essa forma de viver. Com comprometimento, curiosidade e espaço. Espaço para o que cresce além do previsto. Para o que chega sem anúncio. Para aquilo que amplia o horizonte e muda a paisagem por dentro. O roteiro existe. Mas as margens continuam em branco. E...

Tesão pela Vida

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  Tem dias em que a gente acorda diferente. Não aconteceu nada extraordinário. Nenhuma grande notícia, nenhum acontecimento capaz de justificar a mudança de temperatura. Ainda assim, alguma coisa parece ter voltado a circular. O corpo está mais presente. O olhar, mais atento. As ideias chegam com facilidade. Dá vontade de criar, conversar, dançar, sair, escrever — e também de ficar em casa, confortavelmente, saboreando a própria companhia. Talvez seja isso que chamamos de tesão pela vida. Não aquele que necessariamente procura alguém onde pousar, mas uma energia vital que atravessa tudo: a sensualidade, a criatividade, o humor, a curiosidade, o desejo de estar no mundo. E é curioso como isso transparece. O jeito de andar muda um pouco. O olhar demora um segundo a mais. As pessoas talvez percebam — ou talvez sejamos nós que, mais presentes, passamos a perceber melhor as pessoas. Pouco importa. Há uma diferença imensa entre precisar de um olhar para se sentir acesa e descobrir que a ...

Compasso

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Tem coisas que não chegam a ser perda. Deixam uma leve falta. Uma coisa quase sem nome, dessas que passam pela gente e fazem pensar, por alguns segundos: “Que pena. Poderia ter sido bonito.” Não precisa doer muito para tocar. Às vezes é só uma tristeza fina. Uma raiva breve. Uma delicadeza que não chegou a se demorar. Eu prefiro sentir isso inteiro. Sem fingir indiferença. Sem exagerar importância. Sem fazer poesia demais de quem talvez só tenha passado. Alguns encontros ficam. Outros apenas abrem uma fresta. E a gente segue. Com um pouco mais de clareza. Um pouco menos de fantasia. E aquele velho deboche elegante de quem já entendeu que não vale dançar sozinha quando a música pede dois. Talvez seja só isso. Reconhecer o que tocou. Agradecer o instante. E não insistir no que não encontrou ritmo. O resto? A vida ajeita. E, quando quer, muda a música. Porque compasso bom é aquele que não precisa ser sustentado por uma pessoa só.

Eu não sou feita de uma nota só

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Tem dias em que eu me percebo por contraste. Não necessariamente porque eu tenha mudado tanto, mas porque alguns limites ficaram mais claros. Eu sempre gostei de conversa boa, de troca, de presença, de gente que pergunta, lembra, aparece. Sempre gostei de vínculo vivo. Talvez antes eu desse mais brecha. Puxasse mais o fio. Tivesse mais paciência com ausência disfarçada de jeito. Hoje eu observo antes. E isso muda muita coisa. Eu continuo sendo a mesma pessoa que fala de coisas profundas e, cinco minutos depois, faz uma piada idiota. Posso falar de espiritualidade, maternidade, relações, trabalho, desejo, medo, cuidado e, no meio disso tudo, falar de pum. Sim. E sigo achando graça. Porque nunca acreditei muito nessa ideia de que mulher elegante precisa ser permanentemente contida. Eu gosto de elegância. Mas não de personagem. Gosto de sofisticação. Mas não de engessamento. Gosto de profundidade. Mas não de solenidade. Tenho uma parte séria, observadora, inteira. E tenho uma moleca aqui ...

Tenho repensado o lugar das amizades na vida adulta

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  Não só aquelas amizades antigas, construídas ao longo de décadas, mas também as que chegam depois, aos poucos, por reencontros, afinidades, conversas esporádicas, coincidências de caminho. Porque amizade, para mim, nunca foi medida apenas por frequência. Tem gente que fala com a gente todos os dias e, ainda assim, não está realmente presente. E tem gente com quem o contato é espaçado, mas que sabe aparecer justamente quando importa. Talvez seja aí que eu esteja olhando com mais atenção ultimamente: para a qualidade da presença. Quando alguém compartilha conosco que está passando por um momento delicado, não é preciso ter a resposta certa. Não é preciso resolver nada. Nem invadir. Às vezes basta uma pergunta. “Como você está?” “Como foi?” “Deu tudo certo?” “Precisa de alguma coisa?” Parece pequeno. Mas não é. Em momentos de vulnerabilidade, esses pequenos gestos ganham outro tamanho. Tenho amigos que sabem disso intuitivamente. Pessoas que, independentemente do tipo de vínculo, le...

Gente que chega com mundo

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  Tenho pensado que algumas das melhores relações não começam com fogos de artifício. Começam com curiosidade. Aquela vontade discreta de ficar mais um pouco. De ouvir outra história. De descobrir o que existe depois daquela primeira impressão — sem precisar transformar cada silêncio em enigma e cada mensagem em perícia criminal. Talvez isso seja uma sofisticação que o tempo traz: a gente vai deixando de confundir intensidade com profundidade. Profundidade tem outro ritmo. Ela aparece quando duas pessoas chegam com vida própria, repertório, desejo, amigos, histórias, cicatrizes razoavelmente bem acomodadas e alguma disposição para descobrir um mundo que não é o seu. Gosto disso. Gente que chega com mundo. Que apresenta um livro, um restaurante escondido, uma música estranha, uma ideia que contraria a minha. Que sabe conversar e também sabe ficar em silêncio sem produzir aquele constrangimento de elevador parado entre dois andares. Há um certo tesão em encontrar alguém que pensa por...

Espaço entre as coisas

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Tenho gostado cada vez mais das coisas que não chegam prontas. Conversas que começam sem assunto importante e, de repente, já foram longe. Encontros que não carregam a obrigação de explicar o futuro. Pessoas que chegam sem ocupar todos os espaços — e, ainda assim, deixam alguma coisa diferente no ambiente. Talvez exista certa elegância em não antecipar tanto a vida. Nem tudo precisa nascer sabendo o que será. Algumas relações pedem tempo, convivência, curiosidade. Precisam sobreviver ao primeiro encantamento, atravessar uma ou outra discordância, descobrir se o silêncio é confortável e se ainda existe assunto depois que as melhores histórias já foram contadas. Às vezes, não existe continuidade. Fica uma pequena saudade, um “que pena” sem drama, uma lembrança boa guardada no lugar certo. Não é pouco. Também não precisa virar patrimônio histórico tombado. Outras vezes, alguma coisa permanece. Uma vontade de continuar a conversa. De repetir o encontro. De descobrir mais uma camada. Tenho ...