Postagens

Mostrando postagens de 2026

Entre a presença e o espaço: o movimento

Imagem
 Tenho aprendido a apreciar o que não precisa ser forçado. O interesse que se revela nos detalhes. A presença que não invade, mas também não se ausenta. A mensagem que chega sem pretexto. A voz que atravessa a distância simplesmente porque houve vontade de ouvir e ser ouvido. Gosto do tempo da descoberta. Da curiosidade que permanece acesa quando duas pessoas ainda têm muito a conhecer uma da outra. Sem pressa para definir, sem necessidade de antecipar caminhos. Mas há algo que, para mim, faz diferença: movimento. Não aquele que impressiona, promete ou ocupa todos os espaços. Falo do movimento sutil de quem se aproxima porque quer. De quem demonstra interesse sem precisar ser conduzido até ele. Talvez a maturidade tenha me ensinado justamente isso: posso desejar sem perseguir, me envolver sem me perder e demonstrar sem assumir sozinha a responsabilidade pelo encontro. Não preciso interpretar cada silêncio. Prefiro perceber presenças. Gosto de liberdade, mas daquela que sabe criar p...

Fadaleta: o ser em movimento

Imagem
Tenho uma fada-borboleta tatuada nas costas. Ela toca flauta, não tem rosto e permanece inacabada. Hoje percebo o quanto ela carrega de mim. A Fadaleta representa o meu ser em construção: a mulher que fui, a mulher que sou e as tantas mulheres que ainda estou me tornando. Os caminhos percorridos foram me moldando. Encontros, despedidas, escolhas, conquistas, fracassos, vitórias, mudanças de rota, recomeços. Nada disso passou por mim sem deixar alguma coisa. Talvez por isso eu goste tanto de olhar para os ciclos. Os setênios me ajudam a perceber a vida em camadas. A astrologia e a numerologia me convidam a observar movimentos e tempos. A psicologia e a psicanálise me levam para dentro. A filosofia me devolve perguntas quando as respostas parecem fáceis demais. No xamanismo e na espiritualidade, encontro outras formas de escuta. No budismo, presença. Em Jesus Cristo, amor, compaixão e humanidade. Na arte, na música, no canto e na dança, encontro linguagem para aquilo que nem sempre consi...

Maternidade e suas nuances

Imagem
  Tem dias em que a maternidade nos pede uma força que nem sabíamos que ainda tínhamos. A gente organiza horários, conversa com médicos, faz curativos, observa cada detalhe, tenta manter a rotina… e segue. Por fora, prática. Por dentro, um universo inteiro em movimento. Tenho fé. Muita. Mas fé não elimina o medo. Às vezes, ela apenas segura a nossa mão enquanto ele passa. Tenho percebido que o amor de mãe também mora nesse lugar contraditório: na coragem e na apreensão, na confiança e no receio, na vontade de proteger de tudo e na consciência de que há caminhos que precisamos apenas acompanhar. E, no meio disso, tenho buscado pequenos respiros. Uma conversa boa. Uma risada inesperada. Escrever. Brincar. Sentir o sol. Lembrar que existe vida acontecendo enquanto atravessamos o que nos preocupa. Talvez cuidar também seja isso: não permitir que o medo ocupe todos os cômodos da nossa existência. Hoje, meu coração está mais sensível. Mas também profundamente grato. Pelo cuidado. Pela pr...

Quem cabe nas nossas mudanças

Imagem
Amizades que aprendem a atravessar o tempo Tenho pensado que amizade adulta talvez tenha menos a ver com afinidade e mais com espaço. Espaço para que o outro mude. Para que pense diferente. Para que escolha caminhos que não escolheríamos. Para que atravesse fases em que está mais presente e outras em que a vida simplesmente o leva para longe. Durante muito tempo, talvez a gente associe amizade à ideia de proximidade constante, identificação, gostos parecidos, presença frequente, concordância. Mas o tempo vai sofisticando essa compreensão. Porque algumas amizades atravessam décadas não por terem permanecido intactas, mas justamente porque aprenderam a se transformar. Elas sobreviveram às nossas certezas da juventude. Aos namoros. Aos casamentos. Às separações. À maternidade. Às mudanças de cidade. Aos trabalhos que consumiram nossos dias. Às crises. Às conquistas. Às versões um pouco insuportáveis que também já fomos. 😅 E, principalmente, sobreviveram ao fato de que ninguém permanece e...

Indicadores não oficiais da vida adulta

Imagem
A vida adulta tem dessas ironias: a gente aprende a fazer planejamento, matriz de risco, cronograma, orçamento, metas, indicadores, projeções… e ainda assim continua bastante despreparado para lidar com aquilo que não aceita Excel. Presença, por exemplo. Não tem fórmula. Não tem dashboard. Não tem campo obrigatório. E, curiosamente, costuma revelar mais do que muito relatório bem apresentado. Outro item curioso: prioridade. Muita gente declara uma. A agenda declara outra. E a vida, com aquele talento quase inconveniente para auditoria, mostra a diferença. Aliás, a agenda é uma espécie de delatora elegante. Ela não discute, não justifica, não argumenta. Apenas mostra onde colocamos tempo, energia e atenção. Também existe o clássico “vou ver”. Expressão diplomática, socialmente aceita, flexível, aparentemente inofensiva e com impressionante capacidade de atravessar semanas sem qualquer implementação prática. Na vida adulta, “vou ver” poderia até ganhar uma categoria própria nos relatório...

Maturidade relacional

Imagem
Há relações que não terminam quando a conversa acaba. Elas terminam quando a conversa deixa de existir. Quando uma percepção vira sentença. Quando um incômodo vira rótulo. Quando várias pessoas constroem uma versão sobre alguém, mas ninguém tem a coragem — ou a delicadeza — de sentar diante dessa pessoa e dizer: “Isso me atravessou.” “Não gostei.” “Me senti ferido.” “Posso te contar como percebi?” Tenho pensado muito sobre a diferença entre conversar sobre alguém e conversar com alguém. Parece pequena. Não é. Porque podemos errar. Podemos exagerar. Podemos falar demais, ocupar demais, interpretar mal uma situação, atravessar limites sem perceber. Somos humanos. Mas existe uma diferença imensa entre responsabilizar uma pessoa por algo que fez e transformar um episódio numa definição sobre quem ela é. Talvez uma das formas mais silenciosas de violência relacional esteja justamente aí: quando retiramos do outro o direito de participar da conversa sobre a própria história. Criamos versões....

Entre o que vivemos e o que escolhemos cultivar

Imagem
A vida vai nos ensinando, aos poucos, que nem tudo precisa ser resolvido no instante em que acontece. Há experiências que chegam para ampliar repertórios, mudar perspectivas, devolver vitalidade, provocar novas perguntas. Algumas permanecem. Outras apenas atravessam. E todas, de alguma forma, nos mostram um pouco mais sobre quem somos naquele momento. Talvez a maturidade esteja menos em tentar controlar os movimentos e mais em reconhecer o que cada experiência desperta. O que nos expande. O que nos desafia. O que pede coragem. O que pede pausa. O que merece investimento. E o que pode simplesmente ser vivido com leveza. Também há beleza em perceber que nem tudo precisa ter nome, destino ou promessa para ter valor. Às vezes, o mais importante está na qualidade da presença, na maneira como uma conversa nos atravessa, no modo como uma lembrança ganha outro significado, na delicadeza de um encontro, na coragem de experimentar algo novo ou na escolha consciente de não apressar respostas. A v...

Éramos jovens?

Imagem
  Éramos jovens. E continuamos jovens — mas com mais consciência. Com o tempo, fui entendendo que juventude não mora apenas na idade. Mora na curiosidade. Na capacidade de se interessar. Na coragem de rever ideias. Na disponibilidade para aprender. No encantamento que ainda encontra espaço, mesmo depois de tantas experiências. Talvez o que mude não seja a juventude. Mude o olhar. Hoje, algumas escolhas têm outra espessura. Algumas conversas têm outro valor. Algumas presenças são mais bem escolhidas. Alguns silêncios deixam de incomodar. E aquilo que antes parecia urgência, muitas vezes, revela apenas falta de perspectiva. Há uma liberdade muito bonita em chegar a um ponto da vida em que já não precisamos correr para ocupar todos os espaços. Podemos escolher. Onde estar. Com quem construir. O que merece energia. O que ainda desperta curiosidade. O que já não combina com a nossa medida. E talvez seja justamente aí que a vitalidade ganha outra força. Não a vitalidade da pressa, da nov...

O que o presente desperta

Imagem
  Pico do Lopo - Extrema - MG Tenho aprendido a reconhecer alguns instantes pelo que eles despertam, não pelo que prometem. Há experiências que chegam sem grandes anúncios e, ainda assim, movimentam lugares inteiros dentro da gente. Trazem curiosidade, desejo, leveza, presença. Reacendem o gosto pela conversa, pelo encontro, pelo inesperado, pelo que não precisa ser imediatamente explicado. Talvez porque, depois de tantas travessias, eu já não tenha a mesma pressa de antes. A vida me ensinou que nem tudo precisa ser definido para ser verdadeiro. Algumas experiências simplesmente pedem espaço para acontecer. Hoje, gosto mais desse lugar. De perceber o que sinto sem me atropelar. De me permitir viver sem tentar antecipar todas as respostas. De reconhecer o que me faz bem sem transformar o presente em promessa. De continuar intensa, mas mais inteira. Há uma delicadeza imensa em poder desejar e, ao mesmo tempo, permanecer em si. Em sentir o corpo vivo, a curiosidade acesa, o afeto circ...

Mãe, mulher que empreende e cuida

Imagem
Tem fases em que ser mulher é sustentar muitos lugares ao mesmo tempo. Sou mãe. Sou profissional. Sou mulher. Sou filha, irmã, amiga. Sou aquela que cuida, organiza, decide, acolhe, trabalha, cria projetos, faz acontecer. E também sou alguém que tem desejos, sonhos, cansaços, dúvidas e vontade de viver com mais leveza. Tenho uma rede de apoio familiar maravilhosa, e reconheço profundamente o privilégio e a importância disso. Minha família é presença, suporte, cuidado e afeto em muitos momentos da minha vida. Ainda assim, existem responsabilidades que são minhas. Na maternidade, especialmente quando se é divorciada, há uma carga cotidiana que muitas vezes permanece concentrada na mulher. São decisões, rotinas, imprevistos, preocupações e pequenas demandas que se acumulam sem fazer muito barulho. Na vida profissional, também existem movimentos. Há períodos em que os projetos avançam, outros em que desaceleram. Há a liberdade de empreender, atuar como autônoma, criar novos caminhos — e há...

Quem é você quando ninguém precisa saber quem você é?

Imagem
  Às vezes, eu me pergunto: quem somos quando todos os rótulos caem? Quando tiramos o cargo. O sobrenome. A formação. O dinheiro. A falta dele. A profissão. O endereço. A aparência. O currículo. As conquistas. As relações que nos validam socialmente. Quem sobra? Ao longo da vida, transitei por universos muito diferentes. Convivi com pessoas conhecidas, anônimas, acadêmicas, artistas, empresários, profissionais brilhantes, gente com muito dinheiro e gente atravessando momentos difíceis. Estive em ambientes sofisticados e em lugares muito simples. E, no fim, o que mais me marcou nunca foi o status. Foi a pessoa. Foi quem sabia sentar à mesa e conversar de verdade. Quem ria sem precisar impressionar. Quem tratava o outro com respeito, independentemente de quem estivesse diante dele. Quem tinha repertório, mas também escuta. Quem podia ocupar lugares importantes sem precisar diminuir ninguém. Quem continuava humano quando ninguém estava olhando. Talvez por isso eu tenha aprendido a me ...