Perna bamba, agenda na mão
Ainda quero a perna bamba.
Não apenas aquela provocada por um encontro que muda discretamente a temperatura do corpo.
Quero a perna bamba diante de uma conversa que desloca certezas. De uma amizade que atravessa décadas e continua encontrando assunto. De um filho que cresce e apresenta ao mundo uma versão de si que não estava nos nossos planos. De um projeto que assusta justamente porque importa. De uma despedida. De um recomeço. De alguém que chega. De alguém que fica.
E até de quem vai embora.
Há pessoas que passam pela nossa vida deixando histórias. Outras deixam perguntas. Algumas deixam saudade. Há aquelas que deixam alívio — embora essa parte raramente renda fotografias bonitas.
A vida é bastante criativa na maneira de nos colocar em relação.
Talvez por isso eu tenha certa resistência à ideia de que maturidade seja uma espécie de estabilidade permanente, um lugar onde finalmente sabemos quem somos, o que queremos e como reagiremos diante das coisas.
Que tédio.
Quanto mais vivo, mais percebo que algumas das experiências mais interessantes começam justamente quando alguma coisa escapa daquilo que eu havia organizado.
Ainda bem.
Mas hoje há uma diferença.
A perna pode bambear.
A agenda continua na mão.
Não como instrumento de controle. A vida já me ofereceu evidências suficientes de que planejamento e realidade mantêm uma relação bastante flexível.
A agenda apenas me lembra que existe uma vida acontecendo enquanto alguma coisa acontece comigo.
Talvez seja essa uma das delicadezas que o tempo oferece: descobrir que podemos ser profundamente atravessados sem entregar as chaves da casa inteira.
Podemos amar alguém sem viver a vida dessa pessoa.
Podemos acompanhar os filhos sem escrever seus roteiros.
Podemos cuidar dos pais sem acreditar que conseguiremos protegê-los do tempo.
Podemos preservar uma amizade sem exigir que ela continue tendo a mesma forma de trinta anos atrás.
Podemos nos apaixonar por um projeto sem transformar trabalho em identidade.
Podemos desejar alguém sem fazer do desejo um departamento de planejamento estratégico.
Essa última serve para várias áreas, aliás.
Porque quem sabe organizar, cuidar, antecipar, acolher e fazer acontecer corre um risco silencioso: começar a fazer acontecer também aquilo que só teria sentido se acontecesse em conjunto.
A gente chama.
A gente lembra.
A gente aproxima.
A gente compreende.
A gente encontra justificativas.
A gente puxa a cadeira.
E, quando percebe, também escolheu o restaurante, fez a reserva, montou a mesa e está se perguntando por que está cansada.
Não quero.
Tenho planilhas suficientes.
Hoje me interessa observar outra coisa:
Quem também puxa a cadeira?
Não apenas nas relações amorosas.
Na amizade.
Na família.
No trabalho.
Nas parcerias.
Naquelas relações difíceis de nomear que a vida inventa sem consultar nosso formulário de cadastro.
Vínculos têm movimento.
E talvez uma das coisas mais bonitas seja perceber que não precisamos produzir sozinhos aquilo que desejamos viver acompanhados.
Isso não significa contabilidade afetiva.
Não quero viver anotando quem telefonou por último, quem ofereceu mais, quem apareceu três vezes e quem apareceu duas.
Deus me livre transformar afeto em prestação de contas.
Estou falando de algo menos mensurável e muito mais perceptível:
reciprocidade.
A sensação de que existe alguma coisa vindo também de lá.
Há relações que nos deixam expansivos.
Outras nos deixam pequenos.
Algumas permitem silêncio sem produzir distância.
Há aquelas em que precisamos explicar demais quem somos.
Outras nos recebem antes mesmo de terminarmos a frase.
Algumas pessoas nos conhecem há décadas e talvez nunca tenham chegado muito perto.
Outras aparecem há pouco tempo e encontram uma sala dentro de nós que nem lembrávamos que existia.
Tempo não é necessariamente intimidade.
Proximidade não é necessariamente presença.
E compreender alguém não cria compatibilidade.
Essa talvez tenha sido uma das descobertas mais incômodas.
Podemos compreender perfeitamente as razões de alguém.
Sua história.
Seu jeito.
Seus limites.
Seus silêncios.
Podemos olhar com generosidade para tudo isso.
E ainda assim reconhecer:
aqui eu não floresço.
Não é preciso transformar ninguém em vilão para escolher outra distância.
Nem toda relação que muda fracassou.
Nem toda amizade que se afastou foi falsa.
Nem todo amor precisa permanecer para ter sido amor.
Nem todo projeto que terminou deu errado.
Nem toda porta aberta precisa continuar sendo passagem.
Talvez amadurecer tenha menos relação com endurecer e mais com perceber medidas.
Quanto de mim cabe aqui sem que eu desapareça?
Quanto posso oferecer sem começar a sustentar sozinha?
Quanto dessa relação é realidade e quanto existe apenas na minha expectativa?
Quem eu me torno quando estou perto dessa pessoa?
Essa última pergunta tem me interessado cada vez mais.
Porque talvez não precisemos compreender completamente o mistério do outro.
Talvez seja suficiente observar quem nos tornamos na presença dele.
Mais livres?
Mais inteiros?
Mais curiosos?
Mais leves?
Ou excessivamente atentos, interpretando silêncios, calculando movimentos, tentando descobrir o significado daquilo que talvez simplesmente esteja acontecendo diante dos nossos olhos?
Às vezes pensamos demais porque sentimos profundamente.
Outras vezes pensamos demais porque há pouco acontecendo fora da nossa cabeça.
Saber a diferença exige alguma coragem.
E silêncio.
Ainda assim, não quero chegar a um lugar onde nada mais me atravesse.
Quero continuar sendo surpreendida por pessoas.
Quero amizades capazes de atravessar uma madrugada.
Quero conversas que baguncem ideias antigas.
Quero olhar para meus filhos e descobrir pessoas que não pertencem às minhas expectativas.
Quero projetos que me deem aquele pequeno medo de quem está diante de algo vivo.
Quero lugares novos.
Quero reencontros.
Quero partidas que saibam partir.
Quero gente que saiba ficar.
Quero continuar mudando de ideia quando a vida apresentar argumentos melhores.
E quero, sim, algumas pernas bambas pelo caminho.
Só não quero mais confundir intensidade com abandono de mim.
Talvez seja essa a medida.
A cadeira pode ser puxada para perto.
A porta pode permanecer destrancada.
O coração pode mudar de ritmo.
Alguma certeza pode cair no chão.
E eu ainda continuo aqui.
Com a minha vida.
Meus afetos.
Meus compromissos.
Minhas escolhas.
Minha agenda na mão.
Não para controlar o que vem.
Mas para lembrar que, enquanto tantas pessoas atravessam a nossa história, existe uma relação que também precisa continuar sendo cultivada:
aquela que temos com a própria vida.
Que a perna bambeie.
Tomara.
Seria uma pena atravessar tudo isso sem ainda ser capaz de se surpreender.
Mas a agenda fica na mão.
Afinal, por mais extraordinário que seja aquilo que nos acontece, terça-feira continua chegando.
E, estranhamente, há alguma beleza nisso também.

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Meri