Romântica, com as medidas cabíveis

 


Ainda gosto do encanto.

Da conversa que atravessa o tempo sem pedir licença. Da música que aparece na cabeça porque alguma frase encontrou uma memória. Dos encontros que não estavam no roteiro. Daquele instante em que duas pessoas se olham e alguma coisa muda de lugar.

Gosto do que não cabe inteiramente na lógica.

Mas aprendi que romantismo não precisa significar ausência de lucidez.

Talvez seja justamente o contrário.

Há uma diferença entre permitir-se viver uma história e começar a escrevê-la antes que ela aconteça.

Entre desejar e projetar.

Entre reconhecer uma possibilidade e transformá-la em promessa.

Entre abrir a porta e entregar a chave.

Hoje, gosto mais da primeira parte de cada uma dessas frases.

Posso me encantar sem precisar saber onde aquilo vai chegar. Posso desejar alguém sem imediatamente nomear o que estamos vivendo. Posso abrir espaço para o inesperado e, ainda assim, conversar sobre aquilo que importa.

Porque algumas perguntas não estragam o encanto.

Elas evitam que a fantasia ocupe o lugar da realidade.

Como você funciona?

O que é importante para você?

O que não cabe mais na sua vida?

O que significa cuidado?

Quanto de liberdade você precisa para continuar sendo você?

O que deseja construir quando escolhe estar com alguém?

Não são perguntas para uma entrevista afetiva — ninguém merece um formulário de admissão antes do segundo vinho.

São conversas que aparecem quando existe abertura.

E talvez exista algo profundamente íntimo em poder dizer:

“Eu funciono assim. E você?”

Sem tentar convencer.

Sem moldar.

Sem fazer do outro um projeto de melhoria contínua.

Apenas colocando algumas cartas na mesa e deixando que a vida mostre se aqueles jogos conseguem coexistir.

Tenho percebido também que clareza não diminui meu desejo.

Ao contrário.

Quando não preciso gastar energia tentando adivinhar onde piso, sobra espaço para brincar, rir, desejar, descobrir.

Sobra espaço para o encontro.

E isso me interessa muito mais do que a falsa segurança de uma definição precoce.

Não preciso dar nome a tudo o que começa.

Algumas histórias precisam primeiro de presença.

De conversa.

De tempo.

De realidade suficiente para que possamos conhecer a pessoa que está diante de nós — e não aquela que nossa imaginação, tão competente, já começou a produzir.

Talvez essa seja uma das delicadezas de amadurecer: continuar capaz de se encantar sem terceirizar o discernimento.

Não quero menos poesia.

Quero poesia com chão.

Não quero menos entrega.

Quero uma entrega que não me retire de mim.

Não quero controlar o futuro.

Quero estar suficientemente presente para perceber o que o presente está dizendo.

Continuo romântica.

Gosto do simbolismo, das coincidências, das histórias improváveis, das trilhas sonoras particulares e daquele pequeno mistério que existe quando alguém começa a atravessar nossas fronteiras.

Mas minha morada tem porta.

E a maçaneta continua do lado de dentro.

Não por medo.

Por consciência.

Há pessoas às quais oferecemos passagem. Outras conhecem alguns cômodos. Algumas, muito poucas, recebem acesso aos lugares mais delicados de nós.

E acesso não é posse.

Intimidade não é propriedade.

Liberdade não é ausência.

Assim como clareza não precisa ser controle.

Talvez eu esteja interessada justamente nesse lugar entre as coisas.

Onde posso ter raízes e continuar com as asas abertas.

Onde posso gostar sem me perder.

Onde posso desejar sem antecipar.

Onde posso dizer “não sei onde isso vai dar” e, ainda assim, reconhecer:

“gosto do que está acontecendo aqui.”

Porque a vida já me ensinou que nem todo encontro precisa carregar a responsabilidade de durar para ter sido verdadeiro.

Mas, enquanto estiver acontecendo, gosto que haja presença.

Conversa.

Reciprocidade.

Algum fogo.

E, por favor, um pouco de tempero.

O resto?

O resto a vida escreve.

Desta vez, não preciso tomar a caneta da mão dela.

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