Deixo a porta destrancada
Uma carta de emanação para mulheres que continuam disponíveis para a vida
Não estou esperando.
Tenho coisas demais acontecendo para ficar sentada na antessala da vida aguardando alguma coisa chegar.
Mas também não quero trancar a porta.
Talvez essa seja uma das delicadezas da maturidade: continuar inteira sem se tornar inacessível.
A vida vai nos atravessando.
Algumas experiências ampliam. Outras reorganizam. Há encontros que permanecem, outros que mudam de lugar e alguns que simplesmente cumprem seu tempo.
E seguimos.
Mais conscientes de algumas coisas, completamente iniciantes em outras.
Depois de certas travessias, porém, existe uma tentação silenciosa: construir muros muito bem elaborados e chamar isso de independência.
A gente aprende a resolver.
A não precisar.
A organizar a própria vida.
Constrói uma casa interna bonita, coloca as coisas no lugar e, quando percebe, talvez esteja protegendo tanto aquilo que conquistou que qualquer possibilidade de chegada parece uma ameaça à organização da sala.
Eu não quero isso.
Gosto demais das janelas abertas.
Do inesperado.
Das conversas que começam despretensiosas e, quando percebemos, atravessaram horas.
Das pessoas que despertam curiosidade.
Dos encontros que não chegam anunciando o que serão.
Dos vínculos que encontram profundidade sem que alguém precise cavá-los sozinho.
Quero continuar permitindo que a vida me surpreenda.
Sem transformar cada possibilidade em promessa.
Sem escrever mentalmente o último capítulo de uma história que mal começou.
Sem confundir intensidade com destino.
Nem silêncio com resposta.
Nem química com compatibilidade.
Nem independência com indisponibilidade.
Quero aprender a permanecer no presente também quando o presente for bonito.
Parece simples.
Nem sempre é.
Às vezes a vontade de preservar algo faz com que tentemos antecipá-lo. Nomear. Organizar. Entender.
Mas algumas relações precisam justamente do contrário:
espaço para revelar o que são.
Então, Universo, esta é a minha emanação.
Que eu tenha lucidez para reconhecer aquilo que me faz bem e serenidade para não antecipar aquilo que ainda está nascendo.
Que eu saiba receber sem correr para segurar.
Oferecer sem carregar.
Cuidar sem assumir tudo.
Me aproximar sem sair de mim.
Que eu consiga abrir espaço para o outro sem diminuir o meu.
E que aquilo que desejar permanecer também saiba fazer movimento.
Porque reciprocidade não precisa ser uma contabilidade de gestos.
Mas precisa ser percebida.
Na curiosidade.
Na presença.
Na iniciativa.
Na disponibilidade para conversar.
Na delicadeza de reparar.
Na vontade de atravessar algumas pontes sem esperar que alguém construa todas elas primeiro.
Hoje compreendo melhor que nem tudo que chega veio para ficar.
E talvez essa seja uma das liberdades mais bonitas da maturidade.
Um encontro não precisa durar uma vida inteira para ter sido verdadeiro.
Uma relação pode mudar de forma sem apagar o que existiu.
Uma história pode surpreender justamente porque não tentamos obrigá-la a cumprir o roteiro que imaginamos.
Por isso, não quero viver me defendendo daquilo que ainda nem aconteceu.
Continuo vivendo.
Criando.
Trabalhando.
Cuidando.
Rindo.
Desejando.
Mudando de ideia.
Fazendo planos e desfazendo alguns deles.
Continuo ocupando a minha própria vida.
Mas deixo espaço.
Para uma conversa inesperada.
Uma amizade improvável.
Uma parceria.
Um reencontro.
Um amor.
Uma descoberta sobre mim mesma.
Ou qualquer coisa bonita que a vida ainda não tenha me apresentado.
Não estou à espera.
Estou disponível para ser surpreendida.
Há uma diferença enorme.
Esperar pode suspender a vida.
Estar disponível é vivê-la por inteiro sem precisar fechar todas as portas para aquilo que ainda pode chegar.
Talvez esta carta seja sobre isso.
Sobre mulheres que aprenderam a ficar em pé sozinhas e agora descobrem que não precisam provar isso o tempo inteiro.
Podemos ser autônomas e permeáveis.
Fortes e afetivas.
Livres e disponíveis para criar vínculos.
Podemos gostar profundamente da nossa própria companhia e ainda desejar compartilhar partes da vida.
Uma coisa não diminui a outra.
Então sigo assim.
A casa é minha.
Eu escolho quem entra, quanto tempo permanece e quais espaços serão compartilhados.
As janelas continuam abertas.
E a porta?
Deixo destrancada.
Agora, convenhamos:
quem quiser entrar também precisa saber bater.

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Abraços,
Meri