A vida não cabe em linha reta

Tem dias em que tudo parece perfeitamente organizado.

Agenda minimamente sob controle, algumas certezas no lugar, decisões encaminhadas, gavetas internas razoavelmente fechadas.

Aí a vida entra sem bater, muda uma cadeira de lugar e pronto.

Lá vamos nós reorganizar a sala.

Talvez eu tenha feito as pazes com isso.

Não com o caos pelo caos — confesso que gosto de alguma estrutura. Disciplina, organização e processo podem ser grandes aliados, desde que se lembrem de uma coisa básica: precisam caber na vida. Quando a vida é que começa a precisar caber neles, alguma coisa saiu do lugar.

E relações são excelentes para nos lembrar disso.

Relações de trabalho, amizade, família, grupos, parcerias, amores, encontros que ainda nem sabemos o que serão.

Gente não vem com manual de instruções.

Ainda bem.

Cada pessoa chega com seu repertório, seus silêncios, entusiasmos, limites, histórias, maneiras de demonstrar, tempos para compreender e jeitos particulares de ocupar uma sala.

O curioso começa quando tudo isso se encontra.

Porque uma coisa é saber quem somos sozinhos.

Outra, bem mais interessante, é descobrir quem nos tornamos na presença de alguém.

Há pessoas que nos expandem.

Outras nos deixam inexplicavelmente cansados.

Algumas despertam nossa melhor conversa.

Com outras, o silêncio é tão confortável que quase vira linguagem.

Há quem nos provoque ideias.

Quem nos devolva perguntas.

Quem nos faça rir no meio de uma frase séria.

E há encontros que simplesmente não encontram lugar.

Sem vilões.

Sem culpados.

Sem necessidade de produzir uma tese de 147 páginas explicando por quê.

Às vezes não encaixa.

Poxa.

Fazer o quê?

Talvez uma das maturidades que mais me interessam seja justamente essa: conseguir reconhecer o que acontece em nós sem transformar imediatamente tudo em problema a ser resolvido.

Perceber também é uma ação.

Escutar é uma ação.

Esperar um pouco pode ser uma ação.

E mudar de ideia, vejam só, não provoca a queda do sistema solar.

Tenho gostado especialmente das relações em que existe espaço para esse movimento.

Não estou falando de aceitar qualquer coisa em nome de uma suposta flexibilidade evoluída. Pelo amor.

Plasticidade não é ausência de coluna.

É conseguir se mover sem perder o eixo.

É saber o que importa e, justamente por isso, não precisar controlar todas as formas.

Isso vale numa equipe.

Vale numa família.

Vale numa amizade.

Vale em qualquer encontro no qual duas ou mais pessoas precisem construir alguma coisa juntas.

Porque há uma diferença enorme entre adaptação e desaparecimento.

Entre escutar e se calar.

Entre ceder e se abandonar.

Entre colocar um limite e levantar uma muralha.

Entre querer e precisar.

Essa última, aliás, anda me interessando bastante.

Querer é bonito.

Tem desejo.

Tem movimento.

Tem um certo brilho no olho.

Mas querer não transforma o outro em responsável pelo nosso equilíbrio.

Posso querer companhia e também gostar da minha própria.

Querer participar e perceber que hoje prefiro não ir.

Querer uma oportunidade e descobrir, durante o caminho, que ela já não combina tanto comigo.

Querer que alguém fique sem precisar segurar sua perna na porta.

Ainda bem.

Querer deixa espaço para a escolha.

E escolha precisa de liberdade para continuar sendo escolha.

Talvez por isso eu esteja cada vez menos interessada em relações sustentadas apenas por títulos, funções ou obrigações.

Família não produz afinidade automaticamente.

Cargo não produz liderança.

Tempo de convivência não garante intimidade.

Estar num grupo não significa pertencer.

E falar muito não significa conversar.

Da mesma forma, um silêncio pode dizer uma enormidade.

Depende da qualidade da presença.

No fim, talvez seja isso que eu procure nas relações humanas: presença suficiente para que ninguém precise interpretar um personagem o tempo inteiro.

Que possamos chegar com repertório, experiência, títulos, histórias, cicatrizes, competências e tudo o que acumulamos pelo caminho — mas que, vez ou outra, possamos deixar essa papelada na portaria.

Chegar um pouco mais nus.

Não desprotegidos.

Nus.

Há diferença.

Sem precisar demonstrar consciência, competência, força, independência, espiritualidade, maturidade ou qualquer outra medalha imaginária que inventamos para circular socialmente.

Só gente encontrando gente.

Às vezes vai dar uma conversa maravilhosa.

Às vezes uma boa parceria.

Às vezes anos de amizade.

Às vezes amor.

Às vezes uma tarde.

E algumas vezes não vai dar porra nenhuma.

Também faz parte.

Nem todo encontro precisa virar permanência para ter valido.

Talvez a sofisticação esteja menos em saber antecipadamente onde cada coisa vai chegar e mais em desenvolver presença para reconhecer o que ela é enquanto acontece.

Conversar quando houver palavra.

Silenciar quando o silêncio tiver algo a dizer.

Ficar quando fizer sentido.

Ir quando for hora.

Mudar os móveis.

Reorganizar a agenda.

Dançar no meio.

E, se possível, não levar a existência tão a sério a ponto de esquecer que estamos vivos.

Porque a vida pode até gostar de alguma organização.

Mas, definitivamente, ela não cabe em linha reta.

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