A qualidade dos encontros
Tenho pensado que boa parte do que construímos na vida depende menos da quantidade de pessoas ao redor e mais da qualidade da presença que circula entre elas.
Isso vale para quase tudo.
Uma amizade. Uma família. Uma equipe. Uma sociedade. Um grupo reunido em torno de uma causa. Uma parceria profissional. Um encontro aparentemente despretensioso que, sem grandes anúncios, desloca alguma coisa dentro da gente.
Relações são organismos vivos.
Talvez por isso fórmulas funcionem tão pouco.
Há quem precise de mais tempo. Quem chegue perguntando. Quem primeiro observe. Quem pense em voz alta. Quem demonstre fazendo. Quem precise compreender antes de se posicionar.
Diferenças não me parecem o maior problema.
O que me interessa é o que fazemos com elas.
Porque entre impor o próprio jeito e desaparecer para acomodar o jeito do outro existe um território muito mais interessante: aquele que construímos juntos.
No trabalho, isso aparece o tempo todo.
Uma equipe não se torna potente porque todos pensam igual. Torna-se potente quando diferentes perspectivas conseguem circular sem que cada divergência vire disputa de território.
Nos grupos também.
Há uma inteligência que só aparece quando ninguém precisa ser dono da melhor ideia. Quando alguém consegue dizer “não tinha pensado por esse ângulo” sem sentir que perdeu alguma coisa.
Nas amizades, talvez esteja na liberdade de atravessar diferentes momentos da vida sem exigir que o vínculo permaneça congelado na fotografia em que começou.
Na família, muitas vezes está na possibilidade de rever lugares, conversar depois do ruído, reorganizar acordos e descobrir que vínculo não precisa significar repetição.
E em qualquer relação há algo que considero precioso: reciprocidade não como contabilidade, mas como circulação.
Nem todo mundo entrega da mesma maneira.
Nem precisa.
Mas é possível perceber quando existe movimento dos dois lados.
Um pergunta.
O outro escuta.
Um propõe.
O outro acrescenta.
Um abre espaço.
O outro ocupa — e também abre algum.
Talvez os encontros mais interessantes sejam justamente aqueles em que ninguém precisa diminuir para que o outro possa existir.
Há espaço.
Para discordar sem romper.
Para mudar de ideia sem perder coerência.
Para colocar limites sem retirar afeto.
Para reconhecer erros sem perder dignidade.
Para construir algo que não estava pronto antes de nos encontrarmos.
Tenho uma simpatia especial por esse lugar.
O terceiro espaço.
Não exatamente o meu.
Nem exatamente o seu.
Aquilo que só passa a existir porque houve encontro.
Talvez seja essa uma das artes mais sofisticadas das relações humanas: chegar inteiro, encontrar outro inteiro e, ainda assim, deixar algum espaço vazio entre os dois.
Porque é justamente ali que alguma coisa nova pode nascer.

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Meri