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Gosto de gente em movimento

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Estava pensando outro dia sobre encontros. Não sei exatamente o que faz duas pessoas se reconhecerem no meio de tanta gente. E nem estou falando só de amor. Pode ser amizade, trabalho, uma conversa improvável, alguém que senta ao nosso lado e, de repente, duas horas passaram e a conversa fluiu deliciosamente. Tem gente com quem a conversa simplesmente anda. Você fala uma coisa, a pessoa pega, devolve outra, surge uma história, uma gargalhada, um silêncio, muda o assunto, volta três assuntos depois... e ninguém está preocupado em causar boa impressão. Talvez eu goste disso: de gente em movimento. Não movimento de agenda lotada, produtividade, “vamos marcar um café” que jamais acontecerá — disso o mundo já está suficientemente abastecido. Movimento de presença. De lembrar e mandar uma música. De ligar porque deu vontade. De fazer um convite. De perguntar e realmente querer ouvir a resposta. E também de silêncio. Porque nem toda pausa é distância. Na música, a pausa faz parte da composiçã...

As delícias e os avessos de ser mãe

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Ser mãe talvez seja uma das experiências mais bonitas e contraditórias que cabem dentro de uma pessoa. E digo “pessoa” de propósito. Porque antes da mãe existe uma mulher. Com desejos, cansaços, projetos, boletos, tesão pela vida, medos, sonhos, impaciências, ambições, silêncios e uma identidade inteira que não deveria desaparecer no instante em que alguém passa a chamá-la de mãe. Há mães solo. Mães casadas. Separadas. Divorciadas. Viúvas. Mães que dividem a rotina e mães que dividem muito pouco. Mães cercadas de gente e profundamente sozinhas. Mães com rede de apoio. Mães que descobriram, na prática, que “rede de apoio” às vezes é uma expressão bastante sofisticada para duas amigas, uma avó cansada e um grupo de WhatsApp. Cada maternidade tem sua geografia. Mas talvez algumas emoções atravessem muitas de nós. Eu sinto as dores e as delícias de ser mãe. Há momentos de um amor tão profundo que parece impossível explicar sem cair em algum clichê. Aquele instante em que você olha para uma...

Margens que fluem

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Gosto de ter direção. Saber o que importa, sustentar escolhas, honrar compromissos e caminhar em direção ao que faz sentido. Só não tenho a menor pretensão de controlar cada curva. A vida tem movimento próprio — e, convenhamos, costuma ser bastante criativa quando contrariada. Há uma inteligência bonita em ajustar a rota sem perder o rumo. Mudar o passo. Rever uma certeza. Reconhecer uma passagem que não estava ali antes. Plasticidade. Não como falta de decisão, mas como confiança suficiente para não endurecer diante do inesperado. Talvez o flow more justamente aí: nesse ponto delicado entre intenção e abertura, entre conduzir e perceber, entre fazer acontecer e saber quando não atrapalhar o que já está acontecendo. Tenho apreço por essa forma de viver. Com comprometimento, curiosidade e espaço. Espaço para o que cresce além do previsto. Para o que chega sem anúncio. Para aquilo que amplia o horizonte e muda a paisagem por dentro. O roteiro existe. Mas as margens continuam em branco. E...

Tesão pela Vida

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  Tem dias em que a gente acorda diferente. Não aconteceu nada extraordinário. Nenhuma grande notícia, nenhum acontecimento capaz de justificar a mudança de temperatura. Ainda assim, alguma coisa parece ter voltado a circular. O corpo está mais presente. O olhar, mais atento. As ideias chegam com facilidade. Dá vontade de criar, conversar, dançar, sair, escrever — e também de ficar em casa, confortavelmente, saboreando a própria companhia. Talvez seja isso que chamamos de tesão pela vida. Não aquele que necessariamente procura alguém onde pousar, mas uma energia vital que atravessa tudo: a sensualidade, a criatividade, o humor, a curiosidade, o desejo de estar no mundo. E é curioso como isso transparece. O jeito de andar muda um pouco. O olhar demora um segundo a mais. As pessoas talvez percebam — ou talvez sejamos nós que, mais presentes, passamos a perceber melhor as pessoas. Pouco importa. Há uma diferença imensa entre precisar de um olhar para se sentir acesa e descobrir que a ...

Compasso

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Tem coisas que não chegam a ser perda. Deixam uma leve falta. Uma coisa quase sem nome, dessas que passam pela gente e fazem pensar, por alguns segundos: “Que pena. Poderia ter sido bonito.” Não precisa doer muito para tocar. Às vezes é só uma tristeza fina. Uma raiva breve. Uma delicadeza que não chegou a se demorar. Eu prefiro sentir isso inteiro. Sem fingir indiferença. Sem exagerar importância. Sem fazer poesia demais de quem talvez só tenha passado. Alguns encontros ficam. Outros apenas abrem uma fresta. E a gente segue. Com um pouco mais de clareza. Um pouco menos de fantasia. E aquele velho deboche elegante de quem já entendeu que não vale dançar sozinha quando a música pede dois. Talvez seja só isso. Reconhecer o que tocou. Agradecer o instante. E não insistir no que não encontrou ritmo. O resto? A vida ajeita. E, quando quer, muda a música. Porque compasso bom é aquele que não precisa ser sustentado por uma pessoa só.

Eu não sou feita de uma nota só

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Tem dias em que eu me percebo por contraste. Não necessariamente porque eu tenha mudado tanto, mas porque alguns limites ficaram mais claros. Eu sempre gostei de conversa boa, de troca, de presença, de gente que pergunta, lembra, aparece. Sempre gostei de vínculo vivo. Talvez antes eu desse mais brecha. Puxasse mais o fio. Tivesse mais paciência com ausência disfarçada de jeito. Hoje eu observo antes. E isso muda muita coisa. Eu continuo sendo a mesma pessoa que fala de coisas profundas e, cinco minutos depois, faz uma piada idiota. Posso falar de espiritualidade, maternidade, relações, trabalho, desejo, medo, cuidado e, no meio disso tudo, falar de pum. Sim. E sigo achando graça. Porque nunca acreditei muito nessa ideia de que mulher elegante precisa ser permanentemente contida. Eu gosto de elegância. Mas não de personagem. Gosto de sofisticação. Mas não de engessamento. Gosto de profundidade. Mas não de solenidade. Tenho uma parte séria, observadora, inteira. E tenho uma moleca aqui ...

Tenho repensado o lugar das amizades na vida adulta

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  Não só aquelas amizades antigas, construídas ao longo de décadas, mas também as que chegam depois, aos poucos, por reencontros, afinidades, conversas esporádicas, coincidências de caminho. Porque amizade, para mim, nunca foi medida apenas por frequência. Tem gente que fala com a gente todos os dias e, ainda assim, não está realmente presente. E tem gente com quem o contato é espaçado, mas que sabe aparecer justamente quando importa. Talvez seja aí que eu esteja olhando com mais atenção ultimamente: para a qualidade da presença. Quando alguém compartilha conosco que está passando por um momento delicado, não é preciso ter a resposta certa. Não é preciso resolver nada. Nem invadir. Às vezes basta uma pergunta. “Como você está?” “Como foi?” “Deu tudo certo?” “Precisa de alguma coisa?” Parece pequeno. Mas não é. Em momentos de vulnerabilidade, esses pequenos gestos ganham outro tamanho. Tenho amigos que sabem disso intuitivamente. Pessoas que, independentemente do tipo de vínculo, le...

Gente que chega com mundo

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  Tenho pensado que algumas das melhores relações não começam com fogos de artifício. Começam com curiosidade. Aquela vontade discreta de ficar mais um pouco. De ouvir outra história. De descobrir o que existe depois daquela primeira impressão — sem precisar transformar cada silêncio em enigma e cada mensagem em perícia criminal. Talvez isso seja uma sofisticação que o tempo traz: a gente vai deixando de confundir intensidade com profundidade. Profundidade tem outro ritmo. Ela aparece quando duas pessoas chegam com vida própria, repertório, desejo, amigos, histórias, cicatrizes razoavelmente bem acomodadas e alguma disposição para descobrir um mundo que não é o seu. Gosto disso. Gente que chega com mundo. Que apresenta um livro, um restaurante escondido, uma música estranha, uma ideia que contraria a minha. Que sabe conversar e também sabe ficar em silêncio sem produzir aquele constrangimento de elevador parado entre dois andares. Há um certo tesão em encontrar alguém que pensa por...

Espaço entre as coisas

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Tenho gostado cada vez mais das coisas que não chegam prontas. Conversas que começam sem assunto importante e, de repente, já foram longe. Encontros que não carregam a obrigação de explicar o futuro. Pessoas que chegam sem ocupar todos os espaços — e, ainda assim, deixam alguma coisa diferente no ambiente. Talvez exista certa elegância em não antecipar tanto a vida. Nem tudo precisa nascer sabendo o que será. Algumas relações pedem tempo, convivência, curiosidade. Precisam sobreviver ao primeiro encantamento, atravessar uma ou outra discordância, descobrir se o silêncio é confortável e se ainda existe assunto depois que as melhores histórias já foram contadas. Às vezes, não existe continuidade. Fica uma pequena saudade, um “que pena” sem drama, uma lembrança boa guardada no lugar certo. Não é pouco. Também não precisa virar patrimônio histórico tombado. Outras vezes, alguma coisa permanece. Uma vontade de continuar a conversa. De repetir o encontro. De descobrir mais uma camada. Tenho ...

Onde a vida circula

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  Tem coisa que a gente só descobre quando para de mexer Tem uma experiência curiosa nas relações: parar de fazer a nossa parte e mais um pouco. Não como teste. Teste é uma forma meio sofisticada de continuar tentando controlar o resultado. É parar porque, em algum momento, a gente percebe que estava fazendo hora extra num trabalho para o qual nunca foi contratado. Isso acontece em todo lugar. Na amizade em que é sempre a mesma pessoa que chama. Na família em que alguém assumiu silenciosamente a função de manter todo mundo conectado. No trabalho, quando uma parceria só funciona porque existe alguém lembrando, organizando, perguntando, remendando. Nos afetos, quando o interesse até parece existir, mas precisa de uma pequena central de operações para continuar respirando. E tem ainda aquelas relações difíceis de nomear. Pessoas que gostam da nossa presença, acompanham de longe, aparecem de vez em quando, demonstram carinho — mas não necessariamente constroem proximidade. Nada disso p...

Encontro no desencontro: traz um alívio

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Tenho uma relação curiosa com o morno. Na comida, dependendo do prato, resolvemos. Na vida, me cansa. Não estou falando de viver em estado permanente de combustão. Ninguém merece uma existência que precise pegar fogo toda terça-feira para provar que está viva. Gosto de paz. Gosto de silêncio. Gosto de espaço. Mas nenhuma dessas coisas, para mim, é sinônimo de ausência. Há silêncios cheios de presença. Há distâncias que continuam próximas. Há relações tranquilas com uma circulação danada por dentro. E há o morno. Aquela temperatura em que nada está exatamente ruim, mas também não há muito sangue chegando às extremidades. É diferente. Talvez eu tenha aprendido a reconhecer isso mais cedo. Não porque tenha desenvolvido algum sofisticado detector de incompatibilidades — seria ótimo, inclusive aceito indicações de onde compra. Mas porque hoje presto mais atenção no que acontece comigo quando encontro alguém. E “alguém”, aqui, pode ser muita gente. Amigos. Amores. Parceiros de trabalho. Grup...

A vida não cabe em linha reta

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Tem dias em que tudo parece perfeitamente organizado. Agenda minimamente sob controle, algumas certezas no lugar, decisões encaminhadas, gavetas internas razoavelmente fechadas. Aí a vida entra sem bater, muda uma cadeira de lugar e pronto. Lá vamos nós reorganizar a sala. Talvez eu tenha feito as pazes com isso. Não com o caos pelo caos — confesso que gosto de alguma estrutura. Disciplina, organização e processo podem ser grandes aliados, desde que se lembrem de uma coisa básica: precisam caber na vida. Quando a vida é que começa a precisar caber neles, alguma coisa saiu do lugar. E relações são excelentes para nos lembrar disso. Relações de trabalho, amizade, família, grupos, parcerias, amores, encontros que ainda nem sabemos o que serão. Gente não vem com manual de instruções. Ainda bem. Cada pessoa chega com seu repertório, seus silêncios, entusiasmos, limites, histórias, maneiras de demonstrar, tempos para compreender e jeitos particulares de ocupar uma sala. O curioso começa quan...

A qualidade dos encontros

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  Tenho pensado que boa parte do que construímos na vida depende menos da quantidade de pessoas ao redor e mais da qualidade da presença que circula entre elas. Isso vale para quase tudo. Uma amizade. Uma família. Uma equipe. Uma sociedade. Um grupo reunido em torno de uma causa. Uma parceria profissional. Um encontro aparentemente despretensioso que, sem grandes anúncios, desloca alguma coisa dentro da gente. Relações são organismos vivos. Talvez por isso fórmulas funcionem tão pouco. Há quem precise de mais tempo. Quem chegue perguntando. Quem primeiro observe. Quem pense em voz alta. Quem demonstre fazendo. Quem precise compreender antes de se posicionar. Diferenças não me parecem o maior problema. O que me interessa é o que fazemos com elas. Porque entre impor o próprio jeito e desaparecer para acomodar o jeito do outro existe um território muito mais interessante: aquele que construímos juntos. No trabalho, isso aparece o tempo todo. Uma equipe não se torna potente porque todo...

Perna bamba, agenda na mão

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Ainda quero a perna bamba. Não apenas aquela provocada por um encontro que muda discretamente a temperatura do corpo. Quero a perna bamba diante de uma conversa que desloca certezas. De uma amizade que atravessa décadas e continua encontrando assunto. De um filho que cresce e apresenta ao mundo uma versão de si que não estava nos nossos planos. De um projeto que assusta justamente porque importa. De uma despedida. De um recomeço. De alguém que chega. De alguém que fica. E até de quem vai embora. Há pessoas que passam pela nossa vida deixando histórias. Outras deixam perguntas. Algumas deixam saudade. Há aquelas que deixam alívio — embora essa parte raramente renda fotografias bonitas. A vida é bastante criativa na maneira de nos colocar em relação. Talvez por isso eu tenha certa resistência à ideia de que maturidade seja uma espécie de estabilidade permanente, um lugar onde finalmente sabemos quem somos, o que queremos e como reagiremos diante das coisas. Que tédio. Quanto mais vivo, m...

A delicadeza da medida

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  Nem tudo o que nos encanta precisa crescer. Algumas experiências chegam apenas para deslocar o olhar, devolver uma sensação esquecida ou lembrar que certos lugares dentro de nós continuam vivos. Não precisam tornar-se maiores para terem sido verdadeiros. Talvez a maturidade esteja também em reconhecer a medida das coisas. Há movimentos que pedem passagem. Outros, contemplação. Alguns merecem investimento, continuidade, espaço na agenda e na vida. Outros podem permanecer bonitos exatamente onde aconteceram, sem que isso os diminua. Nem toda pausa é medo. Nem todo recuo é desistência. Nem toda abertura precisa tornar-se entrega. Aprender a perceber essas diferenças exige uma escuta muito particular. Aquela que não se orienta apenas pelo entusiasmo do instante, mas também pelo que permanece quando o ruído diminui. Com o tempo, deixamos de direcionar energia apenas para aquilo que desperta desejo e começamos a observar o que também encontra lugar na realidade. Não por excesso de caut...

Nem toda porta aberta é um convite para entrar

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Algumas partes de nós não estão fechadas por medo. Estão preservadas por consciência. Depois de certas experiências, aprendemos que intimidade não é apenas o que acontece durante um encontro. É também aquilo que permanece reverberando quando cada um retorna à própria vida. Uma conversa que alcança lugares profundos. Um corpo que volta a confiar. Uma delicadeza que desperta desejos antigos. A sensação de ser vista depois de muito tempo. Tudo isso pode ser bonito. E justamente por ser bonito, merece cuidado. Nem sempre evitamos um envolvimento porque não queremos sentir. Às vezes, queremos muito. Mas sabemos que determinadas aproximações movimentam camadas que escolhemos manter quietas até encontrarem presença suficiente para recebê-las. Não se trata de exigir garantias antes de viver. Relações não oferecem contratos contra frustrações. Trata-se de perceber se existe realidade suficiente para assumir o risco afetivo que determinada experiência carrega. Porque intensidade e maturidade rel...

Deixo a porta destrancada

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  Uma carta de emanação para mulheres que continuam disponíveis para a vida Não estou esperando. Tenho coisas demais acontecendo para ficar sentada na antessala da vida aguardando alguma coisa chegar. Mas também não quero trancar a porta. Talvez essa seja uma das delicadezas da maturidade: continuar inteira sem se tornar inacessível. A vida vai nos atravessando. Algumas experiências ampliam. Outras reorganizam. Há encontros que permanecem, outros que mudam de lugar e alguns que simplesmente cumprem seu tempo. E seguimos. Mais conscientes de algumas coisas, completamente iniciantes em outras. Depois de certas travessias, porém, existe uma tentação silenciosa: construir muros muito bem elaborados e chamar isso de independência. A gente aprende a resolver. A não precisar. A organizar a própria vida. Constrói uma casa interna bonita, coloca as coisas no lugar e, quando percebe, talvez esteja protegendo tanto aquilo que conquistou que qualquer possibilidade de chegada parece uma ameaça ...

Que o encontro encontre espaço

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Uma carta de emanação para mulheres que desejam viver vínculos com presença, verdade e inteireza Há momentos em que alguma coisa muda silenciosamente dentro da gente. Não acontece com anúncio, data marcada ou grandes decisões. A gente simplesmente percebe. Existe espaço novamente. Espaço para conhecer. Para sentir. Para se aproximar. Para deixar alguém chegar. Não porque esteja faltando alguma coisa. Talvez essa seja justamente a diferença. A vida continua acontecendo: trabalho, filhos, projetos, amigos, boletos, sonhos, cansaços, gargalhadas, imprevistos, vontades. Há uma existência inteira acontecendo antes de qualquer encontro. E ainda assim, em algum lugar, nasce uma disponibilidade. Então, Universo, que eu continue aberta para aquilo que chega com verdade. Para encontros que não exijam performance. Para vínculos em que ninguém precise diminuir a própria existência para caber na vida do outro. Para relações que tenham conversa, desejo, liberdade, cuidado, humor, curiosidade e prese...

Romântica, com as medidas cabíveis

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  Ainda gosto do encanto. Da conversa que atravessa o tempo sem pedir licença. Da música que aparece na cabeça porque alguma frase encontrou uma memória. Dos encontros que não estavam no roteiro. Daquele instante em que duas pessoas se olham e alguma coisa muda de lugar. Gosto do que não cabe inteiramente na lógica. Mas aprendi que romantismo não precisa significar ausência de lucidez. Talvez seja justamente o contrário. Há uma diferença entre permitir-se viver uma história e começar a escrevê-la antes que ela aconteça. Entre desejar e projetar. Entre reconhecer uma possibilidade e transformá-la em promessa. Entre abrir a porta e entregar a chave. Hoje, gosto mais da primeira parte de cada uma dessas frases. Posso me encantar sem precisar saber onde aquilo vai chegar. Posso desejar alguém sem imediatamente nomear o que estamos vivendo. Posso abrir espaço para o inesperado e, ainda assim, conversar sobre aquilo que importa. Porque algumas perguntas não estragam o encanto. Elas evita...