Gente que chega com mundo
Tenho pensado que algumas das melhores relações não começam com fogos de artifício.
Começam com curiosidade.
Aquela vontade discreta de ficar mais um pouco. De ouvir outra história. De descobrir o que existe depois daquela primeira impressão — sem precisar transformar cada silêncio em enigma e cada mensagem em perícia criminal.
Talvez isso seja uma sofisticação que o tempo traz: a gente vai deixando de confundir intensidade com profundidade.
Profundidade tem outro ritmo.
Ela aparece quando duas pessoas chegam com vida própria, repertório, desejo, amigos, histórias, cicatrizes razoavelmente bem acomodadas e alguma disposição para descobrir um mundo que não é o seu.
Gosto disso.
Gente que chega com mundo.
Que apresenta um livro, um restaurante escondido, uma música estranha, uma ideia que contraria a minha. Que sabe conversar e também sabe ficar em silêncio sem produzir aquele constrangimento de elevador parado entre dois andares.
Há um certo tesão em encontrar alguém que pensa por conta própria.
Tesão pela vida, digo.
Embora a vida, quando bem vivida, costume ser suficientemente inteligente para não separar tanto as coisas.
Talvez por isso eu tenha cada vez menos interesse por relações que precisam ser empurradas.
Se é preciso produzir o encontro, sustentar a conversa, organizar a proximidade, interpretar a ausência, justificar a falta de movimento e ainda elaborar o relatório final, convenhamos: já deixou de ser relação e virou gestão de projeto.
E projeto eu sei fazer.
Na vida, tenho preferido outra coisa.
Reciprocidade com alguma espontaneidade. Presença sem invasão. Liberdade sem desaparecimento. Interesse que não precise de legenda.
Gente que sabe chegar.
E, principalmente, que sabe permanecer sendo quem é quando chega.
Porque talvez o encontro mais bonito não aconteça entre duas pessoas incompletas procurando suas metades. Essa matemática já deu trabalho demais.
Prefiro imaginar dois mundos inteiros se aproximando devagar, mexendo um pouco nas próprias fronteiras, abrindo passagem, inventando uma terceira paisagem.
Sem anexação territorial.
Sem manual de instruções de 48 páginas.
Sem precisar carregar ninguém nas costas para provar que existe sentimento.
Há uma leveza muito particular quando ninguém precisa convencer ninguém.
Você oferece presença.
O outro oferece presença.
Você atravessa um pedaço da ponte.
O outro também.
E no meio dela talvez aconteça alguma coisa.
Uma conversa.
Uma amizade.
Um amor.
Uma história breve e deliciosa.
Quem sabe uma história longa.
Não precisamos saber tudo antes de começar.
A vida perde parte da graça quando tentamos preencher antecipadamente todas as lacunas.
Só não quero mais construir a ponte inteira, colocar iluminação, sinalização, GPS e depois chamar de destino aquilo que só aconteceu porque eu fiz toda a engenharia.
Hoje me interessa mais aquilo que se move também na minha direção.
Com harmonia, curiosidade, inteligência, humor e uma certa fome bonita de viver.
O resto?
A gente descobre no caminho.
De preferência com uma boa conversa à mesa.
E água engarrafada.
Alguns critérios civilizatórios precisam sobreviver ao romantismo.

Que texto mais gostoso de ler!!
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