As delícias e os avessos de ser mãe


Ser mãe talvez seja uma das experiências mais bonitas e contraditórias que cabem dentro de uma pessoa.

E digo “pessoa” de propósito.

Porque antes da mãe existe uma mulher. Com desejos, cansaços, projetos, boletos, tesão pela vida, medos, sonhos, impaciências, ambições, silêncios e uma identidade inteira que não deveria desaparecer no instante em que alguém passa a chamá-la de mãe.

Há mães solo. Mães casadas. Separadas. Divorciadas. Viúvas. Mães que dividem a rotina e mães que dividem muito pouco. Mães cercadas de gente e profundamente sozinhas. Mães com rede de apoio. Mães que descobriram, na prática, que “rede de apoio” às vezes é uma expressão bastante sofisticada para duas amigas, uma avó cansada e um grupo de WhatsApp.

Cada maternidade tem sua geografia.

Mas talvez algumas emoções atravessem muitas de nós.

Eu sinto as dores e as delícias de ser mãe.

Há momentos de um amor tão profundo que parece impossível explicar sem cair em algum clichê. Aquele instante em que você olha para uma criatura que saiu de você — ou chegou até você por outros caminhos — e pensa: meu Deus, como pode existir tanto amor dentro de um corpo só?

E cinco minutos depois pode estar pensando: meu Deus, eu só queria ficar quinze minutos em silêncio.

As duas coisas podem ser verdade.

Há dias em que queremos colo enquanto somos o colo de alguém.

Dias em que temos uma paciência quase ancestral e outros em que ela pede demissão sem cumprir aviso-prévio.

Há pensamentos intrusivos que assustam. Há vontade de fugir por algumas horas, desaparecer numa pousada onde ninguém saiba pronunciar a palavra “mãe”. Há culpa por querer espaço. Culpa por trabalhar. Culpa por não trabalhar. Culpa por cansar. Culpa por perder a paciência. Culpa até por sentir culpa.

A maternidade parece vir acompanhada de um departamento interno de auditoria que trabalha em regime integral e raramente concede férias.

Mas isso também é humanidade.

Amar profundamente alguém não nos transforma em seres inesgotáveis.

Tenho vontade de ser exemplo para meus filhos. De garra, força, amor, justiça, dignidade. Quero que olhem para mim e reconheçam uma mulher que tentou construir caminhos, que caiu e levantou, que soube proteger sem aprisionar, amar sem apagar a própria existência.

E, ao mesmo tempo, existem momentos em que o medo bate.

Será que vou conseguir?

Será que estou fazendo o suficiente?

Será que estou acertando?

Será que conseguirei oferecer aquilo que desejo?

Às vezes essas perguntas chegam todas juntas, sem qualquer delicadeza, justamente quando a gente já está administrando trabalho, casa, escola, relações, dinheiro, futuro e algum objeto misteriosamente perdido cinco minutos antes de sair.

Talvez uma das partes mais difíceis da maternidade contemporânea seja justamente essa expectativa silenciosa de dar conta de tudo e ainda parecer emocionalmente regulada enquanto faz isso.

Eu não quero ensinar aos meus filhos que força significa não sentir medo.

Quero que eles aprendam que coragem também é continuar enquanto o medo está sentado ao lado.

Não quero que aprendam comigo uma maternidade de sacrifício como medida de amor. Quero que vejam uma mulher inteira. Que ama profundamente, mas também deseja, cria, trabalha, descansa, se reinventa, coloca limites, muda de ideia e continua tendo sonhos próprios.


Porque talvez nossos filhos não precisem de mães impecáveis.

Talvez precisem de mães humanas.

Presentes o suficiente para amar.
Conscientes o suficiente para reparar.
Corajosas o suficiente para admitir quando não sabem.
E livres o suficiente para continuar existindo para além da maternidade.

Eu sinto as dores e as delícias de ser mãe.

Algumas vezes separadas.

Muitas vezes tudo junto e misturado.

E talvez exista uma beleza imensa justamente aí: perceber que podemos amar nossos filhos com uma profundidade quase inexplicável e, ainda assim, continuar aprendendo quem somos enquanto mulheres.

Sem romantizar o cansaço.
Sem demonizar a ambivalência.
Sem transformar vulnerabilidade em fracasso.

Criamos filhos enquanto, de algum modo, seguimos criando a nós mesmas.

E por aí?

Como tem sido habitar essa mistura de amor, medo, potência, cansaço, desejo, culpa, coragem e uma vontade enorme de fazer dar certo?

Talvez falar sobre isso com mais verdade também seja uma maneira de cuidar umas das outras.

Comentários

  1. Anônimo18:11

    Uma vez ouvir que nasce uma mãe, nasce uma culpa. Mas nasce também um amor, uma guerreira, uma humana, floresce o carinho, a ternura, sem querer romantizar a maternidade. Talvez a pena normalizar que ser mãe é ser humana com todas suas vulnerabilidade como qualquer outro ser, ninguém ensina a ser mãe, mãe sem manual, dotada apenas com seu instinto mais primordial e inato , mais que muitas vezes está disposto a a tudo pela sua cria.

    Parabéns pelo texto e desabafo.

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    1. A sensação, o sentimento, o carinho por ser mãe, é algo maravilhoso e ao mesmo tempo, surgem alguns grilos rs, somos vulneráveis. E acredito na importância de sabermos que temos momentos gloriosos e outros nem tanto. Humanidade 🦋💚🙌.

      Gratidão pelo seu olhar.

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Meri