Tesão pela Vida

 


Tem dias em que a gente acorda diferente.

Não aconteceu nada extraordinário. Nenhuma grande notícia, nenhum acontecimento capaz de justificar a mudança de temperatura. Ainda assim, alguma coisa parece ter voltado a circular.

O corpo está mais presente. O olhar, mais atento. As ideias chegam com facilidade. Dá vontade de criar, conversar, dançar, sair, escrever — e também de ficar em casa, confortavelmente, saboreando a própria companhia.

Talvez seja isso que chamamos de tesão pela vida.

Não aquele que necessariamente procura alguém onde pousar, mas uma energia vital que atravessa tudo: a sensualidade, a criatividade, o humor, a curiosidade, o desejo de estar no mundo.

E é curioso como isso transparece. O jeito de andar muda um pouco. O olhar demora um segundo a mais. As pessoas talvez percebam — ou talvez sejamos nós que, mais presentes, passamos a perceber melhor as pessoas.

Pouco importa.

Há uma diferença imensa entre precisar de um olhar para se sentir acesa e descobrir que a luz já estava vindo de dentro.

Quando isso acontece, não é preciso correr para transformar a energia em alguma coisa. Nem encontrar imediatamente alguém, um projeto ou uma explicação.

Algumas potências merecem simplesmente ser habitadas.

E talvez o magnetismo comece exatamente aí: quando deixamos de perguntar quem poderá nos despertar e percebemos, quase com certo deleite, que já estamos acordados.

O resto é encontro.

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