Eu não sou feita de uma nota só
Tem dias em que eu me percebo por contraste.
Não necessariamente porque eu tenha mudado tanto, mas porque alguns limites ficaram mais claros.
Eu sempre gostei de conversa boa, de troca, de presença, de gente que pergunta, lembra, aparece. Sempre gostei de vínculo vivo.
Talvez antes eu desse mais brecha.
Puxasse mais o fio.
Tivesse mais paciência com ausência disfarçada de jeito.
Hoje eu observo antes.
E isso muda muita coisa.
Eu continuo sendo a mesma pessoa que fala de coisas profundas e, cinco minutos depois, faz uma piada idiota.
Posso falar de espiritualidade, maternidade, relações, trabalho, desejo, medo, cuidado e, no meio disso tudo, falar de pum.
Sim.
E sigo achando graça.
Porque nunca acreditei muito nessa ideia de que mulher elegante precisa ser permanentemente contida.
Eu gosto de elegância.
Mas não de personagem.
Gosto de sofisticação.
Mas não de engessamento.
Gosto de profundidade.
Mas não de solenidade.
Tenho uma parte séria, observadora, inteira.
E tenho uma moleca aqui dentro que ri alto, fala besteira, provoca, brinca e não vê nenhum conflito nisso.
Talvez a minha maturidade esteja justamente em não precisar escolher entre essas partes.
Eu não quero ser menos espontânea porque alguém é travado.
Não quero falar menos porque o outro não alcança minha frequência.
Não quero diminuir minha intensidade de presença para parecer mais fácil de lidar.
Também não quero mais ser a pessoa que sustenta sozinha vínculos que só existem porque eu alimento.
Isso vale para amizade, amor, família, trabalho.
Eu gosto de cultivar.
Gosto de lembrar.
Gosto de perguntar.
Gosto de aparecer.
Mas gosto muito mais quando isso circula.
Quando não sou eu sozinha segurando a ponta do fio.
Talvez seja isso que esteja mais nítido para mim.
Não estou fechando portas.
Estou apenas parando de mantê-las abertas com o pé.
Quem quiser entrar, entra.
Quem quiser ficar, participa.
Quem quiser vínculo, constrói.
E quem não quiser, tudo bem também.
Eu sigo sendo essa mistura que talvez não caiba em muita gente.
Delicadeza e palavrão.
Profundidade e deboche.
Silêncio e gargalhada.
Espiritualidade e pum.
E gosto disso em mim.
Porque não quero ser impecável.
Quero ser inteira.
E inteireza, para mim, nunca teve uma nota só.

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Meri